António Costa começa a pagar as primeiras faturas da geringonça

1 – As discussões parlamentares sobre o Orçamento do Estado para 2018, quer plenárias quer nas comissões, relevaram à evidência uma significativa mudança de estratégia dos partidos que apoiam o governo da geringonça. Começa a ser cada vez mais claro que comunistas e bloquistas entraram numa nova fase de exigências, obrigando António Costa a pagar as primeiras faturas ocultas que traduzem a fase invisível do apoio parlamentar de que os socialistas não podem prescindir.

Para este virar de página concorreram, sobretudo, dois relevantes acontecimentos. O primeiro, de natureza essencialmente política, e que teve o seu epicentro nos resultados das eleições autárquicas; o segundo, de muito maior dramatismo e de uma brutal relevância social, concentrou-se nas tragédias dos incêndios, no princípio e no fim deste trágico verão. A atmosfera política gerada por estes factos abriu o caminho, ou mesmo a exigência, aos comunistas e bloquistas para reajustarem o seu discurso.

2 – Toda a gente percebeu que os dois primeiros anos do executivo foram virados para as chamadas “políticas de reversão da austeridade”, que no período da troika foram impostas ao país. Mas tais reversões apenas se fizeram sentir no bolso dos cidadãos que têm como fontes de receita os cofres do Estado. Ou seja, essencialmente o funcionalismo público e os pensionistas de mais baixas reformas. Todos os demais cidadãos, entenda-se os que apenas dependem da economia privada, praticamente nada sentiram em relação à pesada canga que a crise lhes impôs.

A derrota que os comunistas averbaram nas últimas autárquicas deu o primeiro alerta sobre a mudança de estratégia do PCP. Por seu turno, os bloquistas também não foram além de um modesto desempenho que fica muito aquém do que a sua direção esperava. Logo, os dois partidos tiveram de concluir que os custos do seu apoio ao governo começam a pesar para as ambições eleitorais da esquerda. E por isso mesmo, as negociações para garantir a aprovação do Orçamento do Estado para 2018 tornaram-se muito mais difíceis e penosas para António Costa.

3 – Num quadro já de si a dar um tom mais reivindicativo à esquerda, António Costa viu ainda cair-lhe em cima o peso sociológico do impacto dos incêndios. Mais de uma centena de mortos entre as cinzas, e centenas de milhões de euros de prejuízos são uma fatura pesadíssima para um Governo que parecia ter-se habituado aos ventos favoráveis da sorte. Motivo suficiente para António Costa começar a manifestar um preocupante desnorte. É claro que a apertada vigilância que o Presidente da República decidiu fazer ao Governo muito tem concorrido para o atual nervosismo político…

É óbvio que nada indica que a coligação parlamentar das esquerdas possa vir a tirar o tapete aos socialistas antes do fim da legislatura. Mas é igualmente óbvio que as faturas ocultas que comunistas e bloquistas começam a apresentar a António Costa começam a indiciar que as facilidades políticas serão cada mais escassas. E se a nova liderança que o PSD vai escolher em janeiro for capaz de reinventar um novo discurso de oposição, o primeiro-ministro não terá, seguramente, nas próximas legislativas, o tapete vermelho que esperava.

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