António Costa não pode fazer o papel de morto

1 – Quando António Costa chegou à liderança do Partido Socialista, os analistas políticos esperavam um grito de sobressalto no “povo de esquerda”, que se deveria traduzir num significativo aumento nas intenções de voto naquele partido. Mas logo nas primeiras sondagens pós-congresso, aquelas expectativas saíram defraudadas no espírito de muita gente. Os números vieram demonstrar que o novo líder do PS não tinha, afinal, a varinha mágica da multiplicação dos votos. Não tardaram a surgir as interpretações que justificavam esta aparente desilusão. Sabendo-se que António Costa tinha conseguido uma vitória estrondosa na refrega interna das primárias socialistas contra o anterior líder António José Seguro, os analistas políticos procuraram justificações mais ou menos lógicas para o desconsolo dos números. Mas a ideia dominante foi a necessidade de esperar, e dar tempo ao tempo, até que novas sondagens pudessem tirar as dúvidas.

2 – Novos estudos de opinião foram sendo publicados, confirmando a magreza dos indicadores eleitorais. Começou, então, a sentir-se a apreensão dos estrategos socialistas, e, no seu oposto, algum alento nas hostes da coligação governamental. Os politólogos têm justificado a débil performance do PS nas sondagens acusando o novo líder de seguir a tática do “morto escondido”, confiando que, no tempo próprio, a sua “ressurreição” há-de trazer frutos. Ora, a estratégia de “fazer de morto” é um clássico da ciência política para líderes de alternância do poder, quando o quotidiano da governação segue em velocidade de cruzeiro, com forte desgaste na opinião pública. Mas o mesmo já não se aplica quando aquele mesmo quotidiano é confrontado com sobressaltos de toda a ordem, onde os eleitores querem saber quais as propostas alternativas que os partidos de poder têm para cada problema em concreto.

3 – Posto isto, António Costa está obrigado a esclarecer os portugueses sobre as questões que os afligem. Tais como: vai ou não acabar com a política de austeridade? Como vai resolver o problema da dívida pública? Onde vai arranjar dinheiro para reforçar os apoios sociais do Estado? Que políticas fiscais irá seguir para aumentar as dotações orçamentais na educação, na saúde e nas prestações sociais, incluindo pensões e reformas? António Costa é um político muito experimentado, inteligente e sagaz. Mas a dureza da realidade não dá espaço para truques de mágica. Os portugueses estão cansados de promessas que não sejam acompanhadas de dados e demonstrações objetivas da sua viabilidade. António Costa só tem um caminho: dizer tudo o que pensa fazer, e como. De contrário, a cada dia que passa oferece mais uns votos à coligação PSD/CDS. E quando acordar… pode ser tarde!”

, ,