As lições da crise grega são aviso para Portugal

Por Manuel Teixeira

1 – Qualquer que seja a evolução da crise grega a curto ou a médio prazo, já toda a gente percebeu que estamos perante uma tragédia política e económica sem precedentes para qualquer país pertencente à constelação da União Europeia. O povo grego estaria longe de imaginar que o custo das suas opções políticas seria tão elevado. E em desespero de causa procurou, no referendo, dar um sinal inequívoco aos seus parceiros europeus de que não suportaria mais austeridade.

O “NÃO” dos gregos foi um grito de desespero, compreensível em qualquer país que estivesse submetido ao mesmo sufoco. De resto, compreensível também porque o seu Governo utilizou toda a máquina oficial de propaganda para convencer os cidadãos a votar “NÃO”. O que o Governo não fez foi explicar as consequências de uma tal opção, apostando tudo na ideia de que o “NÃO” reforçaria a capacidade negocial do primeiro-ministro Tsipras junto de Bruxelas.

2 – A verdade é que os bancos fecharam as portas por falta de dinheiro, e os cidadãos cedo começaram a sentir o efeito da terrível tenaz. De cimeira em cimeira, de reunião em reunião, logo se percebeu que a opção política dos gregos só podia trazer ainda mais austeridade, mais dificuldades e maior incerteza sobre o futuro. Independentemente dos acordos com a União Europeia, o presente e o futuro do povo grego continuará a ser um inferno, não se sabe por quantos anos.

Dentro ou fora da moeda única, com ou sem perdão de dívida, a curto ou a média prazo, ninguém tem dúvida que a economia grega vai continuar no fundo do poço. Da mesma maneira que os próprios gregos pressentem que, afinal, vão pagar muito caro os desvarios das políticas do tempo das vacas gordas. Quando toda a gente pensava que dever ou não dever era a mesma coisa, porque um dia “alguém haveria de pagar a fatura”, eis que o cobrador bateu à porta…

3 – Aqui chegados, é tempo de retirar as devidas lições. Antes de mais, os próprios gregos. No olho do furacão, ninguém pode fugir ou escapar às responsabilidades que são, naturalmente, repartidas. Em segundo lugar, a própria União Europeia, e o seu aparelho decisório. Todos foram longe de mais, como se nunca chegasse o momento da verdade. Quando uns e outros acordaram, era tarde para voltar atrás.

Por fim, também os portugueses devem fazer o seu próprio balanço. Porque também nós estivemos à beira do mesmo abismo, e sabemos o que nos custou agarrar as escassas amarras que nos foram oferecidas. Mas se hoje estamos em terra firme, nem por isso podemos dizer que nos afastamos do abismo. Sim, porque é uma miragem sonhar com uma solidariedade que não existe, nem existirá nesta velha Europa, feita manta de retalhos, de compromissos e de interesses…

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