BES, resgate e dívida pública

O governo, escondido atrás do Banco de Portugal, anunciou que o BES acabou e tem solução. Separa-se em banco bom e banco mau: os acionistas ficam com o mau, arcam com as perdas e gerem a sua falência; o bom continua com os clientes de sempre e garante os depósitos.
Acontece que o banco bom – “novo banco” – precisa de ser recapitalizado, porque a parte má deixou-lhe um buraco gigantesco. Essa recapitalização será feita por um fundo da banca, que foi criado para prevenir a necessidade de resgatar bancos. Um fundo privado, financiado em parte pelos bancos e, na sua maioria, por um imposto sobre a banca de que o Estado abdica para colocar nesse mesmo fundo.
Ora o fundo, mesmo assim, não chega. Tem menos de meio milhão de euros e são precisos, para que o “novo banco” possa funcionar, cerca de cinco mil milhões. Então o Estado empresta ao fundo da banca o dinheiro que falta, através de um outro fundo público: o fundo para a recapitalização da banca criado no âmbito da troika.
Esse fundo da troika é, de facto, dívida pública; a troika emprestou ao Estado. Entra para as contas do défice público e estamos a pagar juros sobre ele a cada dia que passa. E, se os privados falharem o pagamento, já percebeu quem paga, não é?
Resumindo: o resgate do BES depende em mais de 90% de fundos públicos. A banca estoira, a dívida pública dispara.
As perguntas são mais que muitas: Podemos nós entregar milhares de milhões de euros de dívida pública à banca privada e acreditar que desta vez é que vai correr bem? Será que podemos acreditar que um banco que hoje vale pouco mais de meio milhão de euros, vai ser vendido por cinco mil milhões e assim pagar o que deve ao Estado? Será que não descobriremos novas faturas para os contribuintes no “banco mau”? Não irá esta história repetir-se mais vezes?
É bom não esquecer que, nos últimos três anos, troika e governo disseram que o essencial para ultrapassar a crise era flexibilizar a legislação do trabalho, privatizar setores estratégicos, cortar serviços públicos. Sobre a banca nem uma palavra; nada se aprendeu com BCP, BPP, BPN. Ficaram intocados os offshore onde todos os crimes se escondem, manteve-se a confusão entre banca de investimento e banca comercial, a supervisão continua orgulhosamente cega.
O problema, dizem, é sempre e só o último banqueiro. Rodam nomes e o jogo continua. Mudar as regras, nunca. Apenas novas fórmulas para os periódicos resgates, mas sempre, sempre com dívida pública.

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