“Carta Aberta” ao presidente eleito da Câmara de Gondomar

1 – Este espaço de opinião jornalística tem tido como princípio de orientação, desde o seu início, não se ocupar com questões locais. Sempre privilegiamos uma análise à situação política nacional, com dois objetivos: por um lado proporcionar, uma vez por mês, aos leitores deste jornal, uma visão das grandes temáticas nacionais; por outro evitar que as paixões da política local se convertam num pretexto divisionista entre leitores que têm em comum a proximidade de quem convive no mesmo espaço territorial. Muito raramente, por isso, nos ocupámos aqui de assuntos locais, sendo que a exceção de hoje deve ser entendida nesse mesmo sentido – uma exceção.
Durante mais de década e meia o concelho de Gondomar foi gerido pelo major Valentim Loureiro, uma personalidade com características muito próprias, que o tornaram, indiscutivelmente, – já antes de ser autarca – numa figura nacional. E em abono da justiça devemos todos reconhecer que o seu reinado legou ao concelho um conjunto de equipamentos de relevante mais-valia para o bem-estar de todos os cidadãos. Pavilhões e parques desportivos, infantários e creches, piscinas e centros de lazer, escolas e lares de idosos, centros de saúde e equipamentos de socorro, vias de comunicação e transportes, habitação social e centros de acolhimento, etc. etc.

 2 – Terminado este ciclo, e independentemente das circunstâncias políticas especiais em que ocorreram as eleições autárquicas no concelho, os gondomarenses optaram pela mudança, dando uma folgada vitória aos socialistas. E escolheram para seu presidente um jovem mas já experiente autarca, que praticamente se estreou nestas lides como presidente da maior Junta de Freguesia do concelho, o Dr. Marco Martins. Ou seja, alguém que não é virgem na gestão de proximidade da coisa pública, e que, indiscutivelmente, foi construindo uma imagem muito positiva, sobretudo na cidade de Rio Tinto, que inclui, também, a freguesia de Baguim do Monte.
Os tempos que atravessamos são particularmente difíceis para qualquer autarca. Com um brutal estrangulamento de meios financeiros – sejam eles os resultantes de receitas próprias, sejam os que decorrem de transferências do poder central – o novo presidente tem um enorme desafio, e um penoso caminho para percorrer. Manda a honestidade intelectual que todos os gondomarenses tenham a consciência plena destas dificuldades, e das suas consequências. Por isso mesmo, exigir-lhe mundos e fundos, como se estivéssemos a reviver tempos de vacas gordas seria, para além de uma tremenda injustiça, uma prova de menoridade intelectual.

3 – Senhor Presidente: Vossa Excelência não ignora que o autor destas linhas conhece muito bem o que é gerir uma grande autarquia. E com as devidas diferenças em relação ao Porto, o nosso concelho é parte integrante da segunda maior região metropolitana do país. O que lhe confere particulares responsabilidades no desenvolvimento global e harmonioso da Área Metropolitana do Porto. Uma honra, mas sobretudo um desafio para quem passa a ser um “inter pares”. Por isso mesmo, o que desde já lhe pedimos, como gondomarense, é que comece por apostar no nosso orgulho coletivo, e na afirmação de uma nova imagem do concelho de Gondomar.
Sabemos que os cidadãos lhe vão exigir, muitas vezes, o impossível. E por isso precisará de ter ideias claras sobre as prioridades deste seu mandato. Se nos é permitida uma sugestão, e em tempos de penúria de recursos, comece por apostar na manutenção e melhoria do espaço público: pisos e passeios das nossas artérias; disciplina no tráfego; iluminação pública; recolha de lixos e limpeza; jardins e zonas de lazer; rede de abastecimento de água; saneamento e condução de águas pluviais. Aqui reside o primeiro cartão de visitas das nossas freguesias. Não permita, pois, que Gondomar continue a ser olhado como um concelho dormitório dos arrabaldes do Porto. Porque não pode haver pior designação ou qualificativo…

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