Crise de liderança no PS terá efeitos eleitorais?

1 – A disputa pela liderança do PS, protagonizada por António José Seguro e António Costa, tem servido de “inspiração” a alguns comentadores e analistas políticos que vaticinam, em consequência da refrega, uma catástrofe eleitoral para o PS nas eleições do próximo ano. Alguns destes analistas, particularmente alinhados às teses governamentais, vão mais longe, adivinhando uma vitória eleitoral da coligação PSD/CDS, quiçá até reforçando a maioria absoluta.
O mínimo que se pode dizer destes visionários é que ou desconhecem as mais elementares regras da ciência política, ou pura e simplesmente se assumem, sem um pingo de vergonha, como propagandistas da maioria governamental. De facto, dizem os clássicos da ciência política, uma crise de liderança como aquela que está a viver o PS apenas divide internamente o núcleo do aparelhismo, ou seja, aqueles que hoje vivem dependentes do atual líder, António José Seguro, e aqueles que já aspiram a viver à sombra de António Costa.

2 – Vejamos o porquê deste raciocínio: é sabido que os dois maiores partidos do “centrão” (PS e PSD) desenvolveram, ao longo dos anos, uma lógica interna de poder que se sustenta numa oligarquia de alguns milhares de “militantes profissionalizados” que se assumem como a “tropa de choque” dos respetivos líderes. Isto, independentemente de quem, em cada momento, seja o líder do partido. Cada vez que o chefe muda, outro esquadrão se organiza internamente para repartir o bolo…
Assim, pode dizer-se que a cada líder corresponde um aparelho interno próprio, cujo núcleo duro se mantém, no poder ou na oposição, sempre de atalaia às oportunidades para subir, ou de fascina às torres de vigilância nos postos estratégicos. Não há, pois, nem bons nem maus aparelhos consoante os líderes. Há apenas “militantes profissionalizados”, que vão lutando pela sobrevivência pessoal, ao sabor e ao ritmo das alternâncias internas de poder.

3 – Ora, é este fenómeno que concorre para leituras enviesadas sobre o efeito eleitoral das crises de liderança nos partidos do chamado arco da governação. Porque independentemente do líder que venha a disputar as eleições, é mais que sabido que os aparelhos partidários, estejam ou não em “funções” no momento dos atos eleitorais, nunca deixam de votar no seu partido. Logo, o efeito eleitoral na respetiva família partidária é sempre igual a zero…
Resta saber se estas disputas públicas se podem refletir no eleitorado em geral. A resposta é não. Pelas razões que se seguem: o eleitorado socialista é composto por militantes, simpatizantes e flutuantes. Os primeiros e os segundos, na hora de votar, são insensíveis às guerras internas. Os terceiros comportam-se em função do julgamento que fazem dos governos. E neste caso, o atual governo não tem, nas próximas eleições, como segurar o eleitorado flutuante. Pior ainda: a atual disputa permite ao PS uma gigantesca campanha anti-governo até às primárias. E assim, está tudo dito.

, ,