Crise dos bancos põe “geringonça” à prova

1 – Terminado o mês das férias, o regresso do país ao seu ritmo natural arrasta também a vida política para uma intensidade crescente em todos os partidos. Setembro é decisivo para o desenho do Orçamento do Estado para o próximo ano, até porque é sabido que o Governo terá de apresentar a sua proposta ao Parlamento até 15 de outubro.

Desde que foi assinado o acordo da “geringonça”, todos sabiam que a elaboração e aprovação dos orçamentos é o momento mais alto de cada ano político. Porque é neste documento que a realidade se vê confrontada com mais ou menos fantasias, e, consequentemente, onde as tensões político-partidárias mais se revelam.

2 – Para além de todas as dificuldades que a economia interna vem manifestando, o Governo sabe ainda que não poderá contar, na elaboração do orçamento para o próximo ano, nem com os favores de Bruxelas, nem com a ajuda dos partidos da oposição de direita. Mas também não pode ignorar que os parceiros da “geringonça” (PC e BE) prometem esticar a corda até aos limites, ainda que, na hora da verdade, os votos não faltarão no hemiciclo de S. Bento.

Há porém um outro dado que tem vindo a complicar todas as contas, e que está a tirar o sono a António Costa. A crise do sistema financeiro não ameaça apenas a estabilidade da “geringonça”, mas põe em grave risco grande parte dos objetivos programáticos do Governo. Chegou a hora da verdade. Os bancos já não podem mais iludir o atoleiro em que estão metidos, quando muito com duas honrosas exceções – BPI e Santander.

3 – Ora, como não há omeletas sem ovos, também não pode haver uma economia dinâmica e em crescimento sustentado sem um setor financeiro robusto e saudável. E como a maioria dos nossos bancos, incluindo a CGD, está com a corda na garganta, obviamente os investidores pensam muito, antes de arriscarem em qualquer negócio.

António Costa terá assim que gerir duas frentes de guerra de altíssimo risco: a frente financeira de recapitalização da banca, com inevitáveis reestruturações internas; e a frente política decorrente da pressão dos seus parceiros parlamentares, que sempre cultivaram as maiores reservas sobre o funcionamento dos bancos. E como cereja no bolo, Costa sabe que tem em Bruxelas todos os holofotes acesos…

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