Crónica dum manifesto inconsequente

A ideia do “Manifesto dos 70” – renegociar a dívida pública em prazos, juros e montantes – é legítima. Mas não é muito útil ao país.
Tem graça ver juntos alguns dos passados responsáveis pelas contas públicas com quem se lhes opunha. É um poderoso lembrete de que o mundo é redondo: dá muitas voltas. Fica é a dúvida: em 2004 era Louçã ou Ferreira Leite que tinha razão quanto ao rumo das contas públicas? Não encontramos resposta a esta pergunta no manifesto mas sabemos uma coisa: em 2013 estão ambos errados.
O problema do endividamento público é real. Temos muita dívida porque os governos passaram anos a gastar o que o país não tinha. Eram os malfadados défices que alguns diziam que não significavam mal nenhum. Mas vale a pena lembrar que houve quem especialmente pedisse mais défices no passado – alguns desses dizem agora que a dívida não é pagável. Tomemos Francisco Louçã. Em 2009 assinou o manifesto por mais despesa pública. Não faltavam ideias: «projetos com impactos favoráveis no emprego, no ambiente e no reforço da coesão territorial e social: reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projetos de investimento em infraestruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na proteção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação». Era gastar sem parar. Agora não é para pagar.
Vale a pena parar para pensar. Louçã está longe de ser o único: muitos dos que andaram anos a pedir que gastássemos mais dinheiro – que não tínhamos e que portanto teríamos de pedir emprestado – são agora os mesmos que dizem que não devemos pagar os nossos empréstimos. Uma atitude bastante responsável, como está bom de ver e que felizmente só não tem consequências porque não é tida como credível.
É que Portugal continua a precisar de se financiar. Dizer ao credores que se vai, unilateralmente, rever as condições tem uma consequência evidente: a dificuldade de obter mais financiamento no futuro. Isso quereria dizer que, a dois meses do fim do programa, em vez de estarmos a planear uma saída estruturada, teríamos de pedir um novo programa de assistência. Mais Troika, mais sacrifícios e três anos deitados fora.
A consequência dum Manifesto pela Reestruturação da Dívida seria esta. Felizmente não foi um apelo credível e continuamos no bom caminho para sair do programa e nos despedirmos da Troika.
, ,