Da Mitologia Grega

Por Michael Seufert

Escrever sobre a Grécia ou qualquer acontecimento relacionado é de um enorme perigo. A situação evolui com uma velocidade tremenda recomendando máxima prudência antes de se fazerem avaliações definitivas. Mas façamos alguma revisão da matéria dada.

Como ponto prévio tem apenas de se assinalar que a Grécia tem gigantescas necessidades de financiamento para as suas contas públicas e precisava – e precisa – de apoio dos seus parceiros europeus. Tem sempre alternativas, claro, como declarar incapacidade de pagamentos (bancarrota) e sair do Euro. Mas se quiser evitar isso (e confesso que por vezes duvidei disso) o governo grego tem de conciliar as suas vontades com as dos parceiros que garantem o financiamento. Uma estratégia de confrontação, como vimos da parte do curioso Varoufakis, cria enorme mal-estar em governos e povos que perdem – e ao longo do processo perderam por vezes – a vontade e o incentivo de colocar o seu dinheiro na berlinda para ajudar o governo grego. O culminar da estratégia de confrontação e de fuga para a frente foi a convocação de um referendo por parte do governo grego. Simplesmente porque a nenhum dos parceiros europeus ocorreu fugir da sua responsabilidade de governante para colocar uma matéria tão complexa como um programa de assistência financeira em forma de referendo. Seriam os gregos os mais prejudicados se mais algum país decidisse fazer o mesmo. Aliás, a inutilidade do referendo foi depois reconhecida tacitamente pelo próprio governo grego: não houve nenhum momento nos dias após o referendo em que este ou o seu resultado fossem evocados para apoiar uma qualquer posição negocial. As negociações continuaram, desde logo com a ação do governo grego, como se nada se tivesse passado mas certamente com muito mais desconfiança de parte a parte.

Com este processo aprendemos, espero, a desconfiar de quem promete soluções milagrosas para processo negociais com parceiros que têm os seus próprios interesses. Muitos foram os que acharam que Portugal deveria assumir uma estratégia de confrontação. Do lado do PS ouvimos que as pernas dos banqueiros até tremeriam se ameaçássemos não pagar a nossa dívida. António Costa disse que a vitória do Syriza dava força ao PS. Hoje é de reconhecer que razão tinha o primeiro-ministro: o discurso do Syriza era do campo dos contos de criança.  A economia grega entretanto sofreu danos muito significativos – como Portugal sofreria se seguisse a irresponsabilidade de outros. Ainda bem que não o fizemos.

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