Da música à política…

Não, não vou falar de política neste artigo!

Melhor, vou falar de política em estado puro quando toma a naturalidade do simples ato de respirar.

Tinha decidido debruçar-me sobre alguns indicadores de retoma económica do país quando, aconteceu algo que, apesar de ter feito parte dos hábitos da minha infância, não ocorria há muitos, muitos, anos. Dei por mim a ver o Festival da Eurovisão.

Pela primeira vez aconteceu o que no meu inconsciente, e penso que no da esmagadora maioria dos portugueses, não era esperado acontecer.

Oiço habitualmente as canções interpretadas por Luísa Sobral, gosto da mistura de música e poema com a sua voz e o jeito invulgar de as cantar, mas o meu afastamento, em relação ao “Festival da Canção”, fez com que eu perdesse a seleção de Salvador Sobral para representar Portugal.

Eis senão quando, um dos meus amigos, a quem eu “apresentara” Luísa Sobral, me enviou pelo Messenger o vídeo da prestação de Salvador. Ali estava uma canção com a marca da sua autora, no poema e na melodia, interpretada com uma simplicidade e uma emoção desconcertantes.

Tão desconcertantes, que penso que me aconteceu o mesmo que à maioria dos portugueses. Parafraseando o famoso slogan de Fernando Pessoa para a Coca-Cola, primeiro estranhei, depois entranhei, e acabei a gostar e a torcer pela vitória frente à televisão.

Salvador tem a força daquelas estrelas que se impõem exatamente pelo brilho do antivedeta e, sobretudo, pela sua inteligência. Num tempo dominado pelo artifício, pelo imediato, pela vacuidade, Salvador impôs-se pelo pensamento e emoção, coerentes, articulados, e verdadeiros, sem plumas nem lantejoulas.

A forma como se apresentou numa conferência de imprensa, com uma camisola a dizer “S.O.S Refugees” e falou da tragédia diária dos refugiados – quando os meios de comunicação social começam a abandonar o tema como se tudo estivesse bem, quando não está – diz tudo sobre Salvador e Portugal, que em matéria de solidariedade e partilha da responsabilidade humanitária tem dado lições, sendo o quinto país que mais refugiados tem acolhido dentro do mecanismo de recolocação da União Europeia, e mostrou que tudo é política, todos os espaços servem para passar a mensagem desde que ela exista. Naquele momento, aquele rapaz com ar entre o tímido e o desengonçado, teve um impacto brutal.

Sim, há gente que chega longe caminhando contra a corrente. É difícil? Sim, é mais difícil! Mas é possível e Salvador Sobral mostrou que vale a pena. Por tudo, só posso dizer obrigada, Salvador! Valeu a pena!

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