E agora?

Não está escrito o que se irá passar nos próximos tempos. Desde 25 de janeiro, data em que, na Grécia, foi eleito o primeiro governo anti-austeridade da zona euro, a política voltou onde nunca devia ter saído: decisão e democracia. Durante os últimos anos, a União Europeia viveu o conto dos povos maus. Os povos dos países periféricos do euro, pouco trabalhadores e muito corruptos, que custavam tanto aos contribuintes europeus e como tal tinham de ser punidos. Foi assim que se impuseram as troikas em Portugal, como na Grécia, ou que se cortaram os direitos em Espanha como na Itália. A história da carochinha foi sempre a mesma: corrigir os problemas estruturais dos países para que as contas fossem equilibradas e as dívidas pagas. Os problemas estruturais foram sempre apontados como próprios de cada país e culpa de cada povo, mas a receita para o equilíbrio foi a universal austeridade (redução de salários e direitos do trabalho, privatizações, cortes no Estado Social). O resultado não variou muito: países mais endividados, povos mais pobres. Agora há quem no Conselho Europeu e no Eurogrupo aponte o dedo ao que foi feito e diga: mais não. Porque os problemas afinal não eram de cada povo, mas da arquitetura do Euro. Porque a solução não equilibrou contas, só desequilibrou mais países. E porque os povos não aguentam mais. E quem hoje desafina a austeridade e desafia Merkel, vai mais longe. Diz ainda, no meu país há problemas para serem resolvidos. Mas nesses as troikas nunca tocaram e, pelo contrário, só protegeram quem os criou. Sabendo das gigantescas fraudes fiscais de Swissleaks e Luxleaks, que Portugal e Grécia são países recordistas em PPPs, que ambos compraram submarinos à Alemanha em casos envoltos em corrupção ou que sempre tiveram desigualdades salariais ofensivas, não é difícil imaginar o mundo de problemas que, a acrescentar à disfuncionalidade do Euro e do BCE, tem sido varrido para debaixo do tapete. Um governo que exige renegociar a dívida que asfixia o país, que quer resolver o problema dos milhões sem acesso à saúde ou ao trabalho, que pede contas pelas mentiras da austeridade e quer responder perante o seu povo sobre a saída para a crise, é algo de novo na Europa. É como se um músico da orquestra do Titanic parasse de tocar a valsa e começasse a tocar o alarme. Não sabemos se vai a tempo de salvar o barco. Mas sabemos que está a tentar. Não tenhamos ilusões: se todos os outros continuarem a fazer de conta que tudo está bem, afundar-nos-emos todos. Em Portugal não podemos ficar à espera. Contar com Passos e Portas, como com Cavaco Silva, só mesmo Angela Merkel. Esperar por quem, como António Costa, teme que lhe batam com a porta no Conselho Europeu e fez parte da mesma construção que hoje afoga a Europa, é uma ingenuidade que já não nos é permitida. Mas há mais país, mais vozes, mais forças. Agora a urgência é o compromisso claro de todas essas forças com quem na Europa se levanta, exige a renegociação das dívidas, afronta a finança e escolhe o crescimento à austeridade. Podemos não saber como serão os próximos tempos, mas sabemos que em Portugal não podemos faltar à responsabilidade de virar a página na Europa. Agora.

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