E o Povo?

O Governo veio fazer o anúncio da “saída limpa” da Troika, no meio de grande encenação e coreografia, com direito a fotografia de família para a posteridade.
Pela voz do Primeiro-ministro ficamos a saber que o cumprimento do Plano de Ajustamento Económico e Financeiro foi um sucesso.
O Presidente da República, por sua vez, logo veio a público, na versão “eu agora falo pelo Facebook”, confrontar os críticos que tempos antes teriam vaticinado a inevitabilidade de um segundo resgate.
Confesso que decorridos todos estes dias ainda não consegui vislumbrar o motivo de tão grande euforia, mas presumo que o problema deve ser meu e da larga maioria dos portugueses, que não conseguimos alcançar o significado de tão sublime celebração nacional.
A verdade é que ao olharmos para o estado do país nada mais avistamos que não seja um imenso rasto de destruição e empobrecimento.
O PIB/per capita e o investimento regrediram para valores de há vinte anos atrás. O rendimento das famílias desceu para valores de há oito anos. Os apoios sociais, os salários e as pensões sofreram severas reduções. Perderam-se mais de 330 mil postos de trabalho e milhares de empresas faliram. As desigualdades e o risco de pobreza aumentaram. Milhares de portugueses emigraram – num movimento de saída do país que ameaça deixar-nos sem a geração melhor preparada que fomos capazes de gerar.
Todos os dias somos confrontados com a diminuição da resposta dos serviços públicos. Os centros de investigação vêm a sua actividade reduzida pela míngua de recursos. Os jovens investigadores estão a emigrar e há milhares de estudantes a abandonar as universidades e a desistir do sonho de um curso superior, devido à redução da capacidade financeira das famílias. Nas escolas, há cada vez mais alunos para cada vez menos professores e os recursos para as despesas de funcionamento são manifestamente insuficientes. Os efeitos dos cortes orçamentais no Serviço Nacional de Saúde são devastadores.
Diante de um cenário destes, aquilo que se impunha na hora da despedida da Troika era uma atitude prudente e de respeito por todos aqueles que a crise deixou para trás.
Em vez disso, o Primeiro-ministro optou por um tom eufórico e o Presidente da República, mais uma vez, colocou em causa o distanciamento e a imparcialidade que a função exige e veio tomar partido na defesa dos seus correligionários. Lamentavelmente, optaram ambos por um mau caminho.
Cavaco Silva é cada vez menos o Presidente de todos os portugueses e sairá completamente desprestigiado do desempenho das suas funções e Passos Coelho, que desenvolveu uma espécie de paranóia messiânica, acabará desacreditado.
O cumprimento do Plano de Assistência, na versão “custe o que custar” “vamos para lá do memorando”, foi um sucesso? Sob o ponto de vista estritamente teórico, no mundo virtual das folhas de exel, talvez tenha sido. Só que a vida é muito mais que aquilo que qualquer gráfico ou tabela, por mais perfeitos que sejam, podem conter e, a políticos experientes, impunha-se que  respondessem à pergunta: e o Povo? Se  o tivessem feito, perceberiam que não há motivo para tanta festa, discurso e lantejoula.

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