É possível jogar mais com menos

As famosas pirâmides do Egito, sobretudo as três que se erguem em Gizé e que foram mandadas construir em meados do terceiro milénio a.C., intrigam a sociedade mundial pela maneira como foram construídas, sem a ajuda de qualquer maquinaria. E no nosso campeonato também existem três e todas com sotaques diferentes. Coates, Marcano e Luisão. Isso mesmo. A experiência e a competência andam constantemente de mãos dadas e os únicos clubes, a par do Rio Ave, que somam três vitórias em três jogos, bem que lhes podem agradecer. Porque a casa não começa (nem pode começar) pelo telhado. É a estabilidade que permite a fantasia no último terço. E o número 3, várias vezes aqui mencionado, tem uma enorme importância, simbolizando a união e o equilíbrio. Não é, por isso, mera coincidência.

Manuel Machado foi protagonista na última conferência de imprensa no Estádio do Dragão. Porque disse uma verdade preocupante e porque disfarçou a incompetência de alguns clubes no treino e na constituição de um plantel. O equilíbrio entre as receitas televisivas impõe-se, uma vez que o aumento da competitividade faz bem ao futebol e à essência do desporto. A diferença entre o plantel do FC Porto e do Moreirense estabelece-se num número perto dos 175 milhões de euros, que é mais do que o valor de 11 equipas da nossa Liga juntas. Assustador, embora factual. Algo que não invalida a tese de ser possível jogar bem mais do que fizeram Belenenses, Vitória de Guimarães e Moreirense na última jornada. Não é assim, Nuno Manta Santos? Os atletas do Feirense respondem por ele. Até à chegada do técnico de 39 anos, o Feirense tinha disputado 14 jornadas e somava apenas 11 pontos no último campeonato. Nas seguintes 20 jornadas, foram 37 os pontos conquistados, culminando com um histórico oitavo lugar, a apenas dois pontos da Europa. Impressionante. E esta época vai já com cinco pontos em três jogos, não tendo ainda sentido o sabor amargo da derrota. Assim como Luís Castro, que com (muito) menos recursos quer sempre jogar futebol – no verdadeiro sentido da palavra – e mantém-se fiel aos seus princípios de jogo. Independentemente do símbolo que os jogadores carregam ao peito e do nome que exibem na parte de trás da camisola.

“Pela primeira vez senti que fomos inferiores ao Real Madrid”, afirmou Gerard Piqué, defesa-central do Barcelona. E o problema reside precisamente aqui, é que não foi a primeira vez. A falta de perceção em como a mudança está a acontecer resulta na perda da hegemonia. E assim foi. O Real Madrid, com a chegada de Zidane, impôs-se no futebol espanhol e europeu. A entrada de Casemiro (está um senhor jogador!) para o onze inicial foi importantíssima, pois trouxe um equilíbrio precioso e libertou Modric, Toni Kroos e até mesmo Isco para outro tipo de tarefas, que só os verdadeiros maestros dominam na perfeição. Ajuda muito ter os melhores futebolistas do planeta. Mas não menos importante é a hercúlea tarefa de colocar todos os egos em harmonia. Um processo que envolve um engenho muito próprio, só ao alcance dos predestinados. E Zidane é um deles. Dentro e fora do relvado.

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