Em maio falamos de abril

Falar de Abril é falar de uma jornada. Uma jornada que enterrou definitivamente uma ditadura ao mesmo tempo que nos abriu as portas para um mar de possibilidades. Para trás ficou um país a preto e branco, cinzento, descalço, onde a mortalidade infantil imperava e o analfabetismo era moda.
Mas hoje, 40 anos depois, ainda que nos digam que são provisórios, sentimos indícios, do ressuscitar de situações que pensávamos que Abril havia resolvido.
A saúde comprava-se e a pobreza ganhava contornos de generalidade. A fome espreitava as casas e instalava-se até á mesa de muitas famílias portuguesas. A reforma era um caminho que obrigava os idosos a percorrerem as ruas de mão estendida. O trabalho, não era um direito, mas um favor dos patrões.
Infelizmente qualquer semelhança com o que vemos hoje, não é apenas pura coincidência.
40 anos depois de 74, Portugal é um país melhor, sem dúvida, mas o percurso de lá até aqui, com particular enfoque nos últimos três anos, deixam-nos fortes motivos de preocupação. Abril está a perder força. A procura da justiça social está a ser descaradamente abandonada e o Estado Social está a ser intencionalmente destruído. A fome espreita já em muitos lares portugueses. E se em cada esquina encontrávamos um amigo, agora em cada esquina encontramos duas pessoas sem trabalho.
Mas isto nada tem a ver com Abril, tem a ver com as opções dos vários Governos dos últimos 38 anos, que se foram afastando dos ideais de Abril. Aos poucos acabaram por vender a nossa produção, destruíram a nossa economia e empobreceram os portugueses. O resultado das políticas desses Governos, sobretudo do atual Governo PSD/CDS, está à vista: o desemprego atinge números nunca vistos. Metade das pessoas desempregadas não tem acesso a qualquer apoio social. A justiça é só para alguns. A saúde passou a ser um luxo. A educação é só para quem tem capacidade económica. Transformam os jovens licenciados em emigrantes. Transformam empresas do Estado que dão lucro, em negócios chorudos para o setor privado. Transformam cidadãos com direitos em clientes com necessidades que se satisfazem no mercado. Agravam as problemáticas ambientais. Levam os baldios aos compartes. Extinguem freguesias e desrespeitam a autonomia do poder local.
Se o Governo não muda as políticas, os portugueses deveriam ter oportunidade de mudar de Governo.
40 anos depois é altura dos portugueses exigirem o reencontro com os valores de Abril e exigirem outras políticas e um Governo que respeite a Constituição.
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