Emprego: o que esconde o governo?

Pedro Passos Coelho afirmou no parlamento que sete em cada 10 trabalhadores que fazem um estágio são depois contratados. Dias depois foi desmentido: afinal sete em cada 10 vão novamente para o desemprego.
Esta é apenas uma das histórias mal contadas. O Banco de Portugal já veio dizer que um em cada três empregos criados em Portugal é afinal um estágio, o Provedor de Justiça denunciou os mais de 50 mil trabalhadores no Estado sem contrato e sem salário (os contratos emprego inserção) e outros tantos nas IPSS.
Os contratos emprego-inserção (esses que não são emprego porque não têm sequer salário e não são inserção porque no final os trabalhadores vão sempre para a rua) estão um pouco por todo o país e em todos os serviços. São trabalhadores e trabalhadoras que tomam conta das crianças nas escolas, nos atendem nas repartições de finanças, vigiam os museus, cuidam de idosos nos lares, estão nas secretarias das instituições de solidariedade social ou são arquitetos nas câmaras. O governo diz que é apenas uma ocupação e não um posto de trabalho. Uma possibilidade oferecida e não uma imposição. Parece querer esconder os desempregados são obrigados a aceitar, que não recebem salário, que trabalham 8 horas por dia, 40 horas por semana. É trabalho forçado.
Ao lado deste abuso, um outro. Este no Estado e nas empresas privadas. Estão nas lojas dos centros comerciais, nas linhas de montagem ou nos escritórios. São os estagiários. O Estado paga o estágio. A empresa em vez de abrir contratação para um posto de trabalho, abre vaga para estágio. Para o empregador é uma mina de ouro: tem um trabalhador no posto de trabalho, mas não tem de pagar o salário ou garantir qualquer direito. No final do estágio, o estagiário salta. Entra outro. Trabalhadores descartáveis. O Governo lá vai dizendo que não. Que é uma oportunidade para encontrar trabalho. Quem vai girando entre estágios, lá terá de perguntar: quantos estágios até se ser trabalhador?
O Bloco de Esquerda propôs no parlamento que fosse efetuada uma auditoria pelo Tribunal de Contas a estes programas. Quanto custam, a quem aproveitam, que resultado. Dir-se-ia que o Governo teria todo o interesse em divulgar esses números. Se os programas são bons, porque não divulgar?
A maioria PSD/CDS juntou-se para chumbar a auditoria. Nenhuma transparência. Que se conheça a verdade, em pensar. Afinal, escondem o que está à vista de todos. Com o nosso dinheiro, andam a pagar para a destruir mais elementar direito: ao trabalho corresponde um contrato e um salário.

,