Estupefações

Temos visto nos últimos meses o Bloco de Esquerda (BE) numa azáfama inusitada – como se o mundo acabasse amanhã – de intervenção política, influenciando, pressionando e mesmo impondo ao governo de António Costa, o cumprimento de toda uma plêiade de iniciativas e soluções, integradas naquele que é o seu populista e, por isso, incoerente, roteiro de ação transformadora da realidade económica e social dos portugueses.

Tal ímpeto desembocou agora em mais um enorme equívoco, seja pelo timing inapropriado para a discussão do tema, seja pela falta de dignidade do próprio tema, demonstrando antes uma ridícula preocupação de discriminação do género feminino que, com toda a certeza, a maioria das mulheres não sente.

Com efeito entende o BE tornar-se imperioso alterar a designação do cartão de identidade dos portugueses deixando de se chamar “Cartão do Cidadão” para se passar a designar “Cartão da Cidadania”, pois entende que só dessa forma se conseguirá afastar um intenso pendor de subalternidade das mulheres relativamente aos homens que o nome encerra, anulando a nova designação proposta esse lastro de dependência anacrónica e sem sentido.

Pois bem, estamos estupefactos.

Estando o País no estado financeiro crítico em que se encontra, com muitos dos seus cidadãos a verem ainda mensalmente a serem reduzidos os seus sempre frágeis “quantuns” salariais, e tendo o BE um papel essencial na sustentação da atual maioria competindo-lhe portanto, coadjuvar o Partido Socialista no encontrar de soluções que alterem substancialmente o quotidiano financeiro penoso em que os portugueses se encontram, o BE centra a sua preocupação interventiva não nesse item essencial do dia-a-dia dos portugueses mas, pasme-se, na alteração da designação do “Cartão do Cidadão”, por não carregar a necessária neutralidade que devia, entre géneros.

Desde logo o timing é péssimo para “lançar” o debate de tema tão singular. Os portugueses (todos os portugueses) têm hoje preocupações bem mais prementes e basilares que lhe não deixam espaço nem tempo para fait divers ocos e inconsequentes.

Depois, é manifestamente duvidosa a pertinência da discussão de um tema que jamais dividiu os portugueses, sejam eles homens ou mulheres, servindo antes como uma artificialidade para fomentar dissensões absolutamente desnecessárias entre eles.

Por fim, tal alteração terminológica representaria a abertura de uma espécie de “Caixa de Pandora”, pois são tantos os exemplos de nomes, conceitos, designações e similares, no contexto lexical português, que se tornaria processo infindável e sem efeito útil previsível.

Clamamos portanto para que os senhores dirigentes do BE, sejam eles homens ou mulheres, se deixem de perfecionismos lexicais, e se preocupem mais em garantir a efetiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, sejam eles também homens ou mulheres.

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