Fazer a diferença

Por Catarina Martins

Estamos no final da legislatura. É tempo de olhar as soluções para o país, mas também de ajustar contas entre o que o Governo se propôs fazer e o que fez. Até porque a medida das falsas promessas de há quatro anos é a medida das falsas garantias de hoje.

Depois de prometer uma nova economia, equilibrar as contas, proteger salários e atacar privilégios, o país que temos é o avesso do prometido: em quatro anos a dívida pública aumentou como nunca, cortaram-se salários e pensões, o emprego destruído e instabilidade laboral enviou centenas de milhares para a emigração, a natalidade caiu mais do que em toda a década anterior e, hoje, uma em cada três crianças vive na pobreza.

No país onde o emprego é cada vez mais uma miragem e onde o salário médio dos novos contratos se fica pelos 581 euros brutos; no país onde pais e avós se sacrificaram para que filhos e netos pudessem estudar, e que hoje os vêm partir para outros países ou viver no calvário da procura de um estágio; no país onde aos 30 anos ou se sai do país ou nem a casa dos pais se consegue deixar… A maior urgência é a criação de emprego. E a recuperação de salário. Só recuperando rendimento das famílias se pode resgatar o país. É urgente repor salários e pensões. E é urgente garantir subsídio social de desemprego a todas as pessoas, sem outro rendimento, que estão sem emprego.

A recuperação do poder de compra de quem menos tem é tanto uma exigência de dignidade e direitos humanos como de recuperação económica. Esse rendimento é imediatamente injetado na economia, porque quem tem menos não investe em paraísos fiscais. Essa reanimação do mercado interno, invertendo o ciclo das insolvências e permitindo a criação de emprego, é o primeiro e determinante passo para a recuperação da economia.

Não aceitamos que não haja recursos para o fazer. Em Portugal o rendimento do trabalho nestes anos baixou de 48% do PIB para 43%. Não é falta de dinheiro. É falta de o distribuir bem.

Uma reforma fiscal efetiva, que alivie o IRS e vá cobrar impostos onde nunca foram cobrados, pode permitir devolver às famílias mais de seis mil milhões de euros de rendimento. A retórica da direita, sobre a necessidade de baixar a tributação do capital para atrair investimento, provou-se errada. Não atraíram qualquer investimento produtivo para o país. Alguém se lembra de uma única grande empresa que tenha vindo para o país?

Ser subalterno à finança pode dar belas fotografias em Bruxelas ou Estrasburgo, mas só afunda a Europa e Portugal. Este é o tempo de ter a coragem de defender o país.

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