Fiabilidade

Na altura em que escrevo este artigo fala-se, “à boca desarmada”, que o PS decidiu, não só suspender as conversas com a maioria tendentes à obtenção de um acordo reformador do IRS, como “rasgar” o acordo alcançado o ano passado sobre a reforma do IRC. Diz-se que o Partido Socialista deixou de concordar com mais um abaixamento da taxa de IRC no próximo ano, emergente do subscrito acordo.
Enfim, suspender conversas ou, a continuarem, não se alcançar o tão desejado acordo reformador por razões de convicção ou mesmo de mera estratégia política, é sempre aceitável, independentemente das responsabilidades que possam ser assacadas aos intervenientes pela secundarização votada aos lídimos interesses do país.
Agora, “rasgar” unilateralmente um acordo, formalizado e em plena execução, porque se entendeu oportuno duvidar da eficácia dos concernentes parâmetros, ou só porque foi subscrito pela equipa dirigente entretanto corrida do poder no partido parece-me, no mínimo, muito exagerado.
O pressuposto essencial da ação de um partido político com fundadas aspirações de poder, é a fiabilidade das respectivas propostas eleitorais e a coerência quotidiana da intervenção dos seus dirigentes. As inopinadas alterações de conteúdo de tais regras inquinam de forma dramática a credibilidade destes agentes lançando o desânimo na comunidade que visam servir.
Na verdade como podem os portugueses confiar num partido político que transige tão facilmente com as “emoções” do momento, esquecendo, atirando para as calendas, os seus compromissos com o país, aquilo que convencionou com os cidadãos? Não é a mudança de opinião que censuro pois há sempre espaço para fazer melhor, para arrepiar caminho naquilo que se nos apresenta como estruturante. Censuro é a forma autista, enviesada, com que o PS decidiu manifestar o seu novo posicionamento na matéria, fazendo-o à absoluta revelia do acordo que garantiu honrar com os partidos da maioria.
Se for para a frente com este equívoco, estará necessariamente o PS a segredar aos portugueses a noção de que as suas próximas propostas eleitorais não são para levar a sério, mais não passando de meros engodos eleitorais para aceder ao poder, mas que uma vez este alcançado, tudo será feito no mesmo caminho da austeridade em que nos encontramos, por ventura de “punhos” bem mais cerrados que a ligeira abertura que a atual maioria já nos começa a proporcionar.
Clamo portanto para a clarividência dos portugueses e dos gondomarenses em especial, para que se não deixem enfeudar neste populismo cansativo, obtusamente redundante e assaz prevaricador dos seus interesses.

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