Finge que faz mas não faz

Por Catarina Martins

Pode um banco que não funciona, não se lhe conhece atividade e não cumpriu um único dos seus propósitos estar a pagar há vários meses para que uma superestrutura paga a peso de ouro finja que faz mas não faz? Pode. Em Portugal, pode. É o que acontece com o Banco de Fomento, criado pelo Governo ainda em 2013 e cuja atividade vem sendo sucessivamente adiada vai para um ano. Enquanto isso as empresas portuguesas, que poderiam ter beneficiado de programas específicos criados pela Caixa Geral de Depósitos, pagam a teimosia do Governo e continuam sem ver um cêntimo da Instituição Financeira de Desenvolvimento (o pomposo nome oficial do Banco de Fomento).

Garante agora o primeiro-ministro, no último debate quinzenal, que a instituição vai começar a funcionar com “algum atraso”, lá para o verão. O problema é que esta é a quarta data anunciada, razão pela qual continuamos sem saber se Passos Coelho estaria a falar do verão de 2015 ou de outro qualquer.

Recapitulemos. Pires de Lima, em conselho de ministros, assegurou que no primeiro semestre de 2014 o banco de fomento estaria a apoiar as empresas nacionais. Depois passámos para outubro de 2014, altura em que a data que foi mais uma vez protelada para o início de 2015. Agora é que vai ser, garante Passos Coelho, dizendo que as “primeiras intervenções” vão ter lugar no verão.

Na verdade o Banco de Fomento, até agora, tem cumprido um propósito. Desde o dia 1 de janeiro que está a pagar a um amplo conselho de administração, sem que se perceba ao certo o que fazem. O número um da instituição tem uma autorização legislativa para receber acima do primeiro-ministro, os restantes vogais recebem mais do que a ministra das Finanças. Numa instituição cujo propósito se limita a articular programas com outras instituições financeiras, para garantir linhas de crédito bonificadas para as pequenas e medidas empresas, não se compreende a dimensão do conselho de administração. Ainda menos se percebe os nomes. Recheado de pessoas sem experiência bancária mas com o cartão do CDS, ou de uma consultora do FMI que passou mais de um ano a elogiar toda e qualquer medida do Governo,

Vale a pena lembrar que, desde o primeiro momento, o Bloco de Esquerda sempre questionou a necessidade de criação deste banco de fomento quando o Estado tem um banco, a Caixa Geral de Depósitos, que podia estar a cumprir os supostos propósitos do Banco de Fomento, com a vantagem inegável de estar a funcionar enquanto o último só tem o espaço físico, os custos com a estrutura e um vastíssima estrutura dirigente que recebe mas não se sabe bem o que faz. Ou sabemos. É preciso arranjar lugar para quem tão bons serviços prestou ao governo.

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