Fora do quadrado

Escrevo este artigo de opinião num momento em que, face ao resultado das eleições e à nova composição da Assembleia da República por ele ditada, o desfecho do processo de formação do próximo Governo ainda é uma incógnita.

Contudo, independentemente do que resultar das conversações em curso para esse fim, há já algumas certezas que não podemos ignorar.

Os portugueses rejeitaram a política de sobre-austeridade seguida pelo Governo PPD-PSD/CDS-PP e isso redundou na perda de mais de setecentos mil votos, em relação à soma da votação nesses dois partidos em 2011 e à perda da maioria absoluta.

A expressão da vontade popular e a atitude de abertura ao diálogo do PS, PCP e BE, abriu um quadro político nunca antes experimentado, abalando velhos conceitos e trazendo a política “pura e dura” para o centro do debate. Está definitivamente em causa o velho conceito de “arco da governação” fechado ao PPD-PSD e PS, com o CDS no papel de fiel da balança.

Pela primeira vez, em Portugal, a dependência do suporte de uma maioria parlamentar para a construção de uma solução governativa estável pode fazer com que a formação de Governo não seja liderada pelo partido ou, neste caso, pela coligação que recolheu o maior número de votos, mas sim por quem conseguir lançar pontes de diálogo que permitam construir uma plataforma de convergência mais alargada. Algo que não é novo no contexto europeu e, por isso, não se percebe a estranheza expressa por alguns diante de tal possibilidade, sobretudo por  aqueles que passam a vida a usar comparações com outros países para justificar as suas opções.

Ao votar desta forma, os portugueses romperam com a ideia de “bloco central”, destruída pela deriva ultraliberal dos partidos da coligação, sobretudo PSD, e ditaram a procura de uma solução fora do quadrado do xadrez político tradicional.

Recordo que na campanha para as primárias disse apoiar António Costa porque ele representava o regresso do primado da política e porque entendia que a complexidade do contexto nacional, europeu e mundial exigia lideranças capazes de pensar fora do quadrado e dotadas da visão estratégica que ele tinha demonstrado em vários momentos do seu percurso político.

Se é verdade que é nos momentos críticos que as capacidades de cada um melhor se revelam, nos últimos dias António Costa tem sido o retrato de tudo o que disse dele nessa altura, podendo vir a produzir um virar de página na história da democracia portuguesa. Tudo o mais é espuma do tempo.

Àqueles que se entretêm a colocar em causa as evidências, resta-me perguntar: qual foi a parte que não entenderam?

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