Futebol sério e especial

Guardiola e Mourinho juntos em Barcelona / Foto: Direitos Reservados

Tudo no treino é, agora, estudado até ao mais ínfimo pormenor. A distância que cada um percorre, em que zonas do campo estão a intervir mais, quem está a treinar de “cadeirinha”… Os técnicos chegam ao campo com auriculares e artimanhas suficientes para analisar o rendimento individual e coletivo ao detalhe. Só falta uma coisa: a “humanização” do treino. Todos os jogadores são, primeiro do que tudo, pessoas. E, por isso, requerem um tratamento especial e singular. Uma atitude serena em determinados casos, muito dura noutros. Porém, um grande líder tem a sensibilidade necessária para discernir entre qual o estilo mais eficaz para cada situação específica. José Mourinho foi o treinador mais influente do futebol mundial no que toca à vertente emocional do treino e do jogo, impulsionando os fatores motivacionais. Transformou por completo jogadores como Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Maniche, Deco, Joe Cole, Damien Duff, Didier Drogba, Wesley Sneijder, Diego Milito, entre tantos outros. Marco Materazzi – que jogava poucos (!) minutos com o técnico lusitano – chegou mesmo a dizer que depois de Mourinho passar por um balneário de uma equipa de futebol, aquele devia ser totalmente remodelado, tal é a herança que José deixa na cabeça e, principalmente, nos corações dos seus jogadores. À parte isso, mora a ideia de jogo do treinador. Um conjunto complexo de princípios, sub-princípios e sub-sub-princípios, em que a tarefa principal (e hercúlea) da equipa técnica passa por operacionalizar com qualidade, tornando-os, assim, simples aos olhos dos jogadores. E aqui reside o grande segredo. Faltam-me, evidentemente, caracteres para expor tudo aquilo que isto exigia. Ainda assim, existem algumas coisas no futebol atual que saltam à vista: cada vez mais vemos saídas de bola a três desde trás, com o trinco a baixar para a linha dos centrais; os extremos a jogarem do lado contrário do seu pé predileto, viajando até zonas mais interiores para depois se acelerar por fora com os laterais; o ponta-de-lança a recuar para criar superioridade no meio-campo, algo que depois também se reflete na falta de presença em zonas de finalização. Guedes, no Rio Ave, e Jonas, no SL Benfica, são dois exemplos claros.

A liberdade permite (e ainda bem) que cada um de nós tenha preferência pela ideia deste ou daquele treinador. Agora uma coisa é certa: Pep Guardiola arriscou levar para o Manchester City uma ideia de jogo fascinante, que encanta e que tem dado frutos, algo não muito comum no Campeonato Inglês. Aliás, tem já a maior sequência de vitórias consecutivas de sempre na Premier League. São 16 e ainda a contar. Assim como na Liga Alemã, pelo Bayern de Munique, com 19 conquistas seguidas, e na Liga Espanhola, ao comando do Barcelona, com 16 triunfos em tantos outros jogos. Verdadeiramente impressionante. E o que dizer do médio Kevin De Bruyne? O belga de 26 anos está numa forma assombrosa. Johan Cruyff afirmava que o jogador tecnicamente evoluído era aquele que conseguisse passar a bola ao primeiro toque ou o mais rapidamente possível, à velocidade certa, para o pé correto do colega de equipa. Sábias palavras. De quem entendia realmente o jogo. De Bruyne decide (quase) sempre bem. Conduz a bola com uma velocidade impressionante. Defende bem, pauta o jogo da sua equipa, assiste com classe, executa as bolas paradas de forma ímpar, marca golos. Faz tudo. Tudo mesmo. É o jogador mais completo do futebol atual. Numa Premier League recheada de intensidade. E o que cresceu Kevin com Pep Guardiola. Honra lhe seja feita. O técnico catalão deu ao belga o “boost” perfeito para o seu crescimento enquanto futebolista. Porque isto de andar a correr num tapete verde é para muitos. Agora para jogar o verdadeiro futebol é para poucos. Muito poucos.

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