“Gondomar? Isso existe?” (pensamento de alguns portuenses…)

Já todos sabemos que, usualmente, os “grandes” olham para os “pequeninos” com desprezo ou sem consideração. É assim na vida, infelizmente, quer seja a nível social, empresarial ou desportivo…

E estas últimas semanas têm sido um bom exemplo desta maneira de ser: de os (supostamente) “grandes” encararem os (alegadamente) “pequeninos” sem qualquer tipo de respeito.

Refiro-me, como imaginarão, à polémica sobre os términos dos transportes na cidade do Porto.

A partir de fevereiro várias linhas de operadores privados passarão a fazer paragem final junto à estação de Metro do Dragão. Há, nesta situação, várias linhas de Gondomar que, até agora, tinham final no Mercado do Bolhão, por exemplo.

Tal mudança, inicialmente anunciada como “condicionamento” justificado pelas obras no Mercado do Bolhão (e uma série de intervenções noutras ruas do Porto) parecem-me, seriamente, vir a ser um “provisório-definitivo”.

São 13 linhas de operadores privados que chegavam ao centro do Porto e ao Campo 24 de Agosto. Agora será o Terminal do Estádio do Dragão o limite. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, assumiu em conferência de imprensa que tal assunto foi tratado com “grande antecedência”. Marco Martins, presidente da Câmara de Gondomar, diz que as coisas não são bem assim…

Os autarcas da Área Metropolitana do Porto (AMP) não terão sido ouvidos, apenas informados das decisões da Câmara do Porto. E das queixas ouvidas por autarcas da AMP, Rui Moreira preferiu numa primeira fase não responder.

O que é certo é que a decisão de Rui Moreira causou divisões dentro da Área Metropolitana do Porto.

A competência dos serviços de transportes de passageiros intermunicipais é da AMP e as alterações de linhas que abrangem mais do que um município e teriam de ser aprovadas por essa entidade. Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da AMP, diz haver no assunto “um contexto especial”. E Marco Martins, presidente da Câmara de Gondomar e coordenador da área dos transportes da Área Metropolitana, mostrou-se contra.

Para o presidente da AMP o tal “contexto especial” é o regime alegadamente temporário destas alterações. Mas, como já escrevi, há assuntos que de temporários passam a definitivos sem qualquer entrave… Tanto mais que, em conferência de imprensa, o próprio Rui Moreira defendeu ver nesta opção uma “solução de futuro”!

Recordo que nos contratos de delegação de competências relacionadas com o sistema de mobilidade e serviço público de transportes, rubricados entre as diferentes autarquias e a AMP, é desta entidade a “competência para promover a articulação dos serviços da sua competência com os serviços da competência de outras autoridades de transporte, designadamente em áreas geográficas adjacentes”. Acrescentando-se que sempre que haja “celebração ou alteração de contratos de serviço público ou mera autorização”, a Área Metropolitana deve fazer uma “consulta prévia” aos municípios abrangidos por esse serviço.

Consulta que não aconteceu.

A Câmara do Porto tem todo o direito de fazer as intervenções de requalificação que quiser. Mas é inaceitável que a sua atuação seja de absoluto desrespeito pelos habitantes de outros concelhos.

Esta falta de respeito, ao implementar mudanças sem diálogo, é deprimente. Gondomar não tem a “dimensão” do Porto. Nem a capacidade financeira do Porto. Sim, somos “pequeninos”, mas mesmo assim devemos ser ouvidos e respeitados.

Mais a mais se pensarmos que muita da “vida” do Porto é resultado da participação diária de muitos munícipes de outros concelhos (que aí trabalham, estudam, etc.).

Faltou diálogo. Rui Moreira disse e fez. Marco Martins protestou, mas não foi ouvido.

Terá faltado, como no “passado”, uma voz gondomarense que pusesse outros “em sentido”. Aquela voz, de militar, que no tal “passado” era ouvida e respeitada a nível local, distrital e nacional. Mas, hoje, as vozes são outras…

Muitas vezes tenho estado em total desacordo com o que diz/defende o presidente da Câmara de Gondomar. Desta vez, e por uma questão de princípio e honestidade, assino por baixo quando diz que “O Porto não vive isolado e as pessoas de Gondomar não podem ser tratadas com esta leviandade.”

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