Gondomar: onde está a cidade?

Vamos falar da cidade de Gondomar, cujo centro fica a cerca de 10km da baixa da cidade do Porto, onde, para lá chegarmos, temos dois meios de transporte: a Gondomarense, empresa privada, e a STCP, empresa pública, mas muito apetecível pelos vorazes “empreendedores” privados. Estamos a falar da cidade, porque o concelho, mais de metade, só tem a Gondomarense, em carreiras e horários que lhe convém, independentemente das necessidades das populações.

Vamos falar da cidade de Gondomar que parou no tempo e que continua, ao fim de 43 anos de poder local democrático, a revelar uma existência física, material e infraestrutural que a coloca, muito seguramente, na cauda das cidades mais importantes da Área Metropolitana do Porto. A cidade que, fazendo fronteira com a capital do Norte, não conseguiu servir as populações com a rede do Metro, nem fazer prevalecer os interesses dos cidadãos no alargamento de carreiras com a rede Andante, sequer a todas as freguesias urbanas. A cidade que deixa que os serviços públicos ou de interesse público encerrem e deixem os habitantes com as vidas ainda mais complicadas.

A cidade que não oferece aos seus jovens ensino superior, nem perspetivas de colocações em profissões altamente qualificadas, pois rareiam as empresas com esse tipo de ofertas. A cidade que não oferece às suas crianças e jovens a possibilidade de conhecerem as memórias da sua identidade, visitando museus ou espaços museológicos. A cidade que não tem um parque verde, devidamente infraestruturado, com equipamentos de recreio e lazer tão necessários ao encontro social entre gerações. A cidade que a partir das 9h da noite (ironicamente, a hora de encerramento do supermercado instalado no seu centro), se transforma numa cidade fantasma, “desabitada” onde se ouve unicamente os passos dos resistentes que insistem em caminhar na sua “cidade”. A cidade que só se lembra dos “Ricardinhos” quando eles chegam ao topo (felizmente, mas às suas próprias custas), mas que não é capaz de oferecer aos seus jovens equipamentos desportivos de uso público para descobrirem as suas competências e gostos pessoais.

A cidade que não oferece, a quem a visita, alojamento para ficar. E não falamos de uma cidade qualquer, falamos de Gondomar, cidade de um concelho com enormes recursos naturais e imensas potencialidades turísticas sustentadas pelos seus rios, vales e serras, pelo seu enquadramento paisagístico, pelas suas praias fluviais, pela sua indústria de ourivesaria e de marcenaria, pela sua filigrana, pelo seu artesanato, pelos seus costumes e tradições, pela sua história e cultura.

Falamos de uma cidade que não oferece às jovens gerações o conhecimento do passado, as vivências do presente e as ferramentas para o futuro que terão de construir.

Falamos de uma cidade que nos entristece quando a comparamos com outras que, com menos recursos e partindo atrás de nós, ultrapassaram-nos há muitos anos, fazendo-nos inveja quando as visitamos.

A nossa cidade é a do panfleto e dos cartazes que publicitam grandes feitos, inócuos, que não criam raízes nem fazem caminho, encomendados para nos fazer crer que temos tudo, quando, na verdade, temos muitíssimo pouco.

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