Incêndios: louvor e aplauso só para as vítimas e os bombeiros

1 – As tragédias dos incêndios que enlutaram o nosso país representam um terrível julgamento sobre os poderes públicos nacionais. Mais de uma centena de mortos, dezenas de milhares de animais carbonizados, centenas de casas ardidas, centenas de empresas destruídas e centenas de milhar de hectares de florestas reduzidas a cinzas são motivo para um grito de revolta de toda a nação. Não é aceitável; não merece perdão nem qualquer tipo de desculpas. Apenas merece a indignação de todos nós.

O Governo ficou atordoado e, numa primeira fase, rendeu-se à inevitabilidade da tragédia, pela voz do primeiro-ministro que não se escusou a anunciar que estas coisas voltarão a acontecer! O Presidente da República conteve-se num prudente silêncio, nas primeiras horas, e aguardou para ver no local o efeito deste inferno. E quando falou, foi violento nas críticas aos responsáveis. Exigiu mudanças profundas na gestão e nos modelos de prevenção e combate aos fogos, sem abdicar das consequências políticas efetivas.

2 – No sábado seguinte aos incêndios, 21 de outubro, o Conselho de Ministros reuniu durante 12 horas para analisar a extensão da tragédia, tomar medidas imediatas, e definir mudanças de rumo a curto e médio prazo. Antes de mais, nova legislação vai permitir indemnizações rápidas às vítimas, em processo extrajudicial. Na estrutura da proteção civil nacional nada ficará como dantes. Foi criada uma Secretaria de Estado específica, e a Força Aérea assumirá toda a gestão dos meios aéreos de combate a incêndios, entre muitas outras decisões tomadas pelo Governo.

Os partidos da esquerda, comunistas e bloquistas, não tardaram a dar o necessário apoio ao Governo de António Costa. E fizeram-no tão pressurosamente quanto a líder do CDS fez saber que o seu partido iria apresentar no Parlamento uma moção de censura ao executivo. O PSD secundou os centristas, assegurando o seu voto favorável à referida censura parlamentar. Mas quem verdadeiramente encostou o primeiro-ministro à parede foi o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. A equipa do Ministério da Administração Interna foi integralmente substituída, com a ministra à cabeça. Demissão que só pecou por tardia, na opinião pública generalizada.

3 – Passadas as duas primeiras semanas sobre este filme de terror, há finalmente condições para um balanço global. Toda a classe política, desde a coligação que apoia o Governo às oposições, merece nota negativa sobre a forma como tem lidado com tão dramáticos acontecimentos. António Costa averba um rotundo chumbo, não apenas pelas suas responsabilidades quer do passado longínquo quer do passado recente, mas também pela frieza humana com que, ainda em cima do braseiro, avaliou a tragédia.

Enquanto isto, os partidos que apoiam o Governo colaram-se-lhe à pele, de forma incompreensível, demonstrando que, na hora da verdade, serão sempre a muralha de aço de António Costa. Mas as oposições (PSD e CDS) também foram incapazes de um rasgo de elevação, optando por cavalgar a onda de um oportunismo político igualmente incompreensível. De facto, só o Presidente da República esteve à altura do seu cargo. E no fim da linha, se alguém merece aplauso e louvor, são as vítimas da tragédia, e a abnegação dos bombeiros, verdadeiros soldados da paz, impotentes para travar a fúria do inferno.

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