João Sem Medo!

Quando conheci o João Semedo, ele era o rosto da luta por alternativas que permitissem levantar novamente a tão nobre conquista do Serviço Nacional de Saúde.

O João que passava os dias em comissão parlamentar de inquérito era o mesmo que passava os fins de semana no Porto a dirigir campanha, dar-nos força, distribuir tarefas, fazer propostas, inventar caminhos novos, juntar gente. Uma energia inesgotável e aquele sorriso ternurento, mesmo quando confessava estar “estoirado”.

A política, esta coisa de tomar em mãos a responsabilidade coletiva de desenhar futuro, de disputar relação de forças para construir caminhos novos, é o que contava para ele. Queria fazer, transformar, não se contentava com palavras ocas. E o João foi incansável nessa tarefa de fazer. Juntou gente e construiu pontes.

O João respondeu pelo presente e pelo futuro. Defendeu um Serviço Nacional de Saúde centrado nos utentes e capaz de responder pela dignidade nos momentos de maior vulnerabilidade. Pela sua mão passou a ser possível ter companhia quando se recorre às urgências, conhecer e exigir o cumprimento de tempos de espera no acesso à saúde, saber o preço dos medicamentos, optar pelos genéricos, levar a medicação necessária para casa depois da alta médica. Defendeu o direito das mulheres ao aborto legal e seguro e o alargamento do acesso às técnicas de procriação médica assistida, bateu-se contra todas as discriminações e por um SNS que fosse garante de igualdade e de avanços. Devemos-lhe o Testamento Vital e o caminho que nos trará, mais cedo do que tarde, a despenalização da eutanásia, em Gondomar, quando em 2005 foi candidato pelo Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Gondomar, defendeu uma política social de Esquerda, que permitisse dar uma resposta cabal aos problemas das pessoas.

Ambição imensa, essa de conseguir refazer “um SNS universal, geral e gratuito, de gestão integralmente pública, cuja prestação de cuidados obedeça a padrões de qualidade e humanidade e que se relacione com as iniciativas privadas e sociais na base da complementaridade e não da concorrência. Em resumo, para o João havia sempre alternativas, nunca estava pronto a desistir, para ele:” lutar é perder, lutar é vencer, mas lutar é construir”.

 Era o sentido da sua vida. É a tarefa que nos deixou.

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