Liderança de Rui Rio obriga Costa a reajustar políticas

1 – O congresso do PSD, que se realizou no passado fim de semana, abriu um novo ciclo na vida política nacional, e não apenas na vida da família social-democrata. Com o início da liderança de Rui Rio inaugura-se uma nova era na oposição, que obrigatoriamente exigirá de António Costa um reajustamento ao seu próprio discurso político, e, naturalmente, às suas políticas e à sua forma de relacionamento com o maior partido parlamentar.

É sabido que Rui Rio não é deputado, e, como tal, não tem lugar no hemiciclo de S. Bento. Logo, perde-se a oportunidade de ver em confronto no Parlamento os dois políticos que desde há muitos anos cultivam uma excelente relação pessoal e institucional. Não decorre daqui que politicamente sejam convergentes. Bem pelo contrário, quem os conhece sabe que ideologicamente têm profundas diferenças, e perspetivas muito divergentes sobre a governação do país.

2 – Ora, o facto do líder social-democrata não se poder confrontar com o líder socialista na casa da democracia obriga Rui Rio a realinhar a direção do seu grupo parlamentar, de molde a que haja uma perfeita sintonia quer nos objetivos políticos que o PSD pretende interpretar, mas também na própria linguagem política do novo chefe da bancada laranja. E, neste sentido, o congresso do passado fim de semana deixou bem claro o desejo de um novo estilo de fazer oposição.

Rui Rio é avesso à retórica superficial, gongórica ou pirotecnizada. Prefere a objetividade da mensagem ao folclore e ao espetáculo. Privilegia a substância sob a forma. Enfatiza a racionalidade sobre a emoção de pacotilha. Caraterísticas que, no caso da vida parlamentar, marcam uma profunda viragem. Resta saber se, sendo a “orquestra laranja” a mesma em S. Bento, a mudança de reportório virá ou não a conseguir a performance interpretativa que o novo líder deseja.

3 – António Costa sabe tudo isto, e conhece suficientemente o novo presidente do PSD para fazer de conta que nada ou pouco mudou. O primeiro-ministro deixou de ter o seu adversário de estimação, Pedro Passos Coelho, que, por ter sido o maestro político do tempo da troika, lhe dava um jeitão como alvo das suas farpas. Já não pode dizer “o seu governo fez, ou não fez…”; quando muito só poderá replicar proclamando “o governo do seu partido fez, ou não fez…”

Mas não é a mesma coisa, como se diz em gíria popular. Porque Rio nada tem a ver com a governação do seu antecessor, ainda que quem herda não possa escolher entre as boas e as más heranças. Herda, naturalmente, o bom e o mau. Mas ninguém lhe pode assacar responsabilidades sobre este passado. O país vai ganhar com esta mudança política, e com os efeitos que dela advirão. António Costa é um político hábil. Rui Rio é um político cerebral, mas também instintivo. Vai ser interessante avaliar as diferenças.

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