Mais do mesmo, mas em mais pobre

1. A décima avaliação da troika foi positiva. O Governo ficou contente. Não é novidade. Sempre que a troika avalia positivamente e o governo fica contente, o país sabe que está mais pobre e mais desigual.

2. O Governo cumpre as metas e isso é positivo, dizem. E que metas? O memorando da troika previa que em 2013 Portugal tivesse um défice de 3%, dívida pública de 108% do PIB e taxa de desemprego nos 12,4%. De facto temos um défice que talvez fique 5,5%, uma dívida a 128% e o desemprego acima de 16%, mesmo com milhares de pessoas a abandonarem o país. É certo que troika e governo foram renegociando metas, para esconder o desastre das suas políticas. Como um mau professor e um mau aluno que acordam que o objetivo é 16, depois 12, a seguir 8 e finalmente ficam contentes com 7,5.

3. Mas o Governo repete: os esforços dos portugueses estão a dar resultados. E as pessoas olham à volta e perguntam-se se perderam o emprego, o salário, a pensão, para que tivéssemos mais milionários e fossem maiores as suas fortunas. Está o país mais pobre, mas alguns ganham muito com isso. São precisos muitos pobres para fazer um rico, já sabíamos.

4. É duro, mas é a economia a ajustar. Há indicadores positivos, insistem. Olhamos para os indicadores. Estamos mais pobres do que há um ano e com mais desemprego. Entre trimestre há apenas sinais de abrandamento da recessão. Explica o Banco de Portugal que é um abrandamento apoiado na procura interna e com uma contribuição negativa da procura externa líquida. Ou seja, o consumo caiu ligeiramente menos e o investimento também (a construção civil abrandou o ritmo da queda). Continuamos a produzir cada vez menos e a ter de importar mais do que exportamos. Não se alterou em nada a estrutura da nossa economia. A nova economia, a que Pires de Lima chama milagre, é afinal a velha economia. Mas num país mais pobre e mais endividado.

5. Passos Coelho e Paulo Portas exultam porque a troika está a seis meses de ir embora. Nada dizem sobre como aguentará o país uma dívida pública que a troika só aumentou. E repetem que a austeridade é para ficar. A saída da crise ou o fim da chantagem da finança não estão no horizonte do Governo. Apenas mais do mesmo, em mais pobre. Chame-se troika, programa cautelar, ou outra coisa qualquer.

6. A contagem decrescente para o fim da troika só é possível no avesso do Governo. Na luta contra a austeridade, as privatizações, o desmantelamento do Estado Social. Na alternativa da renegociação da dívida, criação de emprego, solidariedade, democracia.

 

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