Médico ao domicílio – um verdadeiro “João Semana”

Estimados leitores, hoje vou vos contar uma história que se passou comigo a passada semana, que me lembrou os velhos tempos de médico de clinica geral, quando fazia domicílios.
Na passada semana, quando numa rara situação saí cedo do Hospital onde trabalho, após “pesadas” reuniões com administradores e outros colegas, surge-me um telefonema de um marido de uma paciente, que me pediu, quase a implorar, que fosse a sua casa consultar a esposa que estava acamada por problemas ortopédicos e por isso precisava de um especialista em Ortopedia. Há cerca de mais de 20 anos que não faço uma consulta ao domicilio e o meu instinto logo me direcionou a propor a um colega de clinica geral, o qual até disponibilizava vindo da Clinica Medica da Foz, clinica essa especializada em consultas ao domicilio com cerca de 31 anos de idade de existência e na qual sou diretor clinico desde o passado 1 de Maio. No entanto o senhor insistiu na minha pessoa, com a ideia que só eu resolveria a dor que penava a doente, sua mulher. Perante isso não resisti a ceder ao pedido e lá fui… Algo de nostálgico, da essência do verdadeiro médico se me afigurou, sentindo saudades dos velhos tempos de tantas consultas ao domicilio eu fiz, com uma realidade da Medicina, eu diria, da pura medicina do famoso médico que consultava os doentes na sua aldeia, fazendo-se transportar num burro, o Dr. João Semana. É certo que o meu “burro” é um Mercedes, com todas as comodidades, mas senti interessante que o Dr. “eu” medico especialista, mestre, docente, vice presidente, diretor clinico, etc, etc, ali ia, como um simples médico a casa do seu doente. Isto sim, é a Medicina no seu mais puro gesto, na essência de poder ser útil a alguém que está a sofrer no seu leito, que nem forças tem para se deslocar ao médico. Por isto deveriam passar todos os médicos pois isso nos dá a experiencia e a nostalgia da nossa profissão. Quando contei esta aventura aos meus colaboradores mais novos, especialistas, percebi a admiração deles, que nunca tiveram esse “prazer” de ir a casa de um doente, que nos chama. Será que podem ser bons médicos assim? São certamente excelentes técnicos de medicina, com óptima preparação teórica, a quem eu próprio confiava a minha vida, mas para ser “médico” é preciso algo mais. A vivencia de ajudar alguém, no seu mais puro momento de necessidade, no recanto da sua casa no seu leito, é algo que só alguns podem alcançar. Obrigado por esta oportunidade, mas certamente não poderei repetir tão cedo, dadas as obrigações que tenho, pelas minhas atuais funções. No entanto obrigado a todos… por me fazer sentir útil a alguém que muito sofre…

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