Memória cultural, memória construída

Foi assinalada dia 27 de Junho a passagem do primeiro aniversário da Loja Interativa de Turismo de Gondomar, na Casa Branca de Gramido. Esta data fez ainda recordar a forma como se vive atualmente o edifício, com uma agenda cultural cheia e uma afluência extraordinária.

Tudo isto leva a pensar que as apostas na recuperação de edifícios municipais com história, dar-lhes uma nova vida, é uma aposta ganha e um caminho certo que se está a percorrer.

Intervir no existente pressupõe o conhecimento e a participação na história e na qualidade do edifício. As construções dos homens preservam, através da sua materialidade, a memória das ideias, dos costumes e dos sistemas de representação das sociedades que ali coabitaram. Na sua intervenção, é por isso impossível manter integralmente a memória materializada, para evitar o não discernimento das diferenças, de não conseguir selecionar o que é significativo, ou impedir o curso natural do tempo e da mudança. Em suma, controlar seletivamente aquilo que considera ser crucial manter vivo como elemento depositário de valor cultural/social.

A recuperação dos edifícios encontra-se aqui enquadrada pelo sentimento de perda, pela importância dos mecanismos da memória e de pertença cultural, e a catarse que significa o re-enraizamento nos espaços simbólicos. Cada intervenção será um caso único que requer a capacidade de reinterpretar através de um processo de conhecimento profundo da arquitetura a intervir ou da cultura onde este se insere.

A pertinência desta aposta está na urgência em preservar formas de outras épocas e vivências, com novas funcionalidades, mas mantendo a coerência. Preservar ou conservar, são as expressões de eleição quando a discussão é a memória, e ao nível da arquitetura a ordem será proteger, cuidar e respeitar. A preservação do património construído é fundamental, tendo em conta que ele é o testemunho vivo da herança cultural. Exerce papel crucial no momento presente, e se projeta para o futuro, criando para gerações futuras referências de um tempo e de um espaço singulares. Nas palavras do nosso Nobel Saramago, “Somos a memória que temos, sem memória não saberíamos quem somos.”

Gondomar é D’Ouro também nas suas construções, e numa altura em que se aposta na cultura e no turismo, deve-se olhar para o seu património e dar-lhe uma nova vida à medida das necessidades da autarquia.

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