Muros

O ano de 2014 é particularmente feliz quanto às efemérides. Já celebrámos em abril os 40 anos da Revolução dos Cravos e não devemos esquecer em novembro os 25 anos da queda do Muro de Berlim. Ou como lhe chamou o Partido Comunista, numa recente edição do Avante, a “chamada queda”.
Para o PC, a queda do muro foi orquestrada pelo imperialismo contra o povo alemão, a RDA foi o primeiro estado antifascista alemão (o que quer que isso queira dizer) e a reunificação alemã foi uma anexação. Notável. Notável sobretudo quando o primeiro responsável pela queda do Muro e essencial abençoador da reunificação foi um comunista. Sem a recusa do secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, de apoiar militarmente o regime leste-alemão (ao contrário do que a URSS fizera noutras alturas, utilizando tanques contra diferentes povos do Leste Europeu) este ficou impotente face à vontade popular.
Devemos, 25 anos depois, algum respeito a esse comunista russo que soube ver para lá dos muros e das ideologias e soube perceber que regimes corruptos, em que os burocratas do suposto partido dos trabalhadores usufruíam das regalias e liberdades que sonegavam ao povo, não poderiam sobreviver àquilo que é uma fatalidade da história: não se pode enganar toda a gente durante o tempo todo.
E recordemos que, só na RDA e portanto esquecendo a Polónia, a Checo-Eslováquia, a Hungria, a Roménia e todas as outras nações oprimidas pelo comunismo na Europa, morreram mais de 1300 pessoas a tentar fugir ao regime. Recordemos também que o muro foi construído para impedir que os alemães de Leste pudessem procurar uma vida mais digna do que a miserável que tinham debaixo do comunismo, com mais de 3,5 milhões de fugas para o Ocidentes antes da construção do Muro – já que não podiam votar nas urnas, diz-se, votavam com os pés. E recordemos por fim que, novamente só contando com a RDA,  existiram mais de 200 mil presos políticos, aprisionados pela polícia secreta que chegou a empregar 2,5% da população, para garantir o controlo totalitário do país das “notáveis realizações nos planos económico, social e cultural” (cito o Avante). A RFA acabaria por literalmente comprar a liberdade a cerca de 34 mil destes presos, trazendo-os para o Ocidente e para a liberdade. Talvez conte como notável realização económica.
Vinte e cinco anos depois não esqueçamos, pois, que haverá sempre quem queira esconder uma ditadura atrás de palavras mansas – até porque há 40 anos derrotámos a nossa.

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