Na dependência da Bola de Cristal

Hoje, temos o Governo que o Parlamento escolheu e não o que os portugueses escolheram. É minha convicção que, se constitucionalmente fosse possível, e, se a palavra tivesse sido devolvida aos portugueses, teríamos, hoje, uma configuração política complemente diferente da atualmente existente.

Agora, que formalmente o Partido Socialista está no poder, por ter conseguido aquilo que a democracia não lhe deu, precisa-se de uma bola de cristal para adivinhar o que vai acontecer nos próximos tempos com uma gestão completamente dependente da consulta permanente aos grupos parlamentares à sua esquerda, para tentar viabilizar cada uma das medidas apresentadas na Assembleia da República. Parafraseando um célebre escritor português: “A maior alma é sempre insignificante ao pé da pequeníssima alma em cuja dependência está”.

Com a entrada em funções do atual executivo minoritário, é notória a obstinação em revogar, reverter medidas levadas a cabo pelos seus antecessores, sem escrutinarem as causas e os respetivos efeitos, num caminho que ficará certamente marcado por cedências em assuntos que deveriam ser tratados de forma rigorosa e coerente, de acordo com princípios de que não se pode abdicar apenas por uma questão de extrema dependência, que inevitavelmente nos conduz à incerteza e instabilidade, nada desejáveis no atual contexto económico e social.

A dependência, se, por um lado, diminui a liberdade, por outro, divide responsabilidades, que cada um vai ter que assumir em cada momento por cada decisão tomada e pelas consequências que gerará.

Não vale a pena mudar só por mudar, apenas pela tentação de destruir o que foi feito e por ser fácil, dessa forma, conseguir o aval de quem se está refém, mas chegará o momento em que a bola de cristal já não será necessária para adivinhar o que vai acontecer quando estiverem em causa medidas verdadeiramente estruturantes, dissipando-se assim todas as dúvidas acerca de quem realmente manda.

Natal é, por excelência, tempo de reflexão, é tempo de meditar no que nos fez chegar até aqui, designadamente no novo paradigma que paira a nível nacional e europeu, patente nos mais recentes acontecimentos que podem ameaçar valores fundamentais das democracias há muito conquistadas, onde deve imperar a tolerância, sensatez, cordialidade e acima de tudo o diálogo, determinantes no presente e no futuro das atuais e próximas gerações.

Até agora fizeram passar as propostas porque se trata apenas de desfazer o que foi feito. É só facilitismos mas o grau de dificuldade da consulta vai aumentar quando de medidas restritivas e de implementação se tratar.

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