Não TAP os olhos à demagogia

Ficou concretizado o processo da escolha dos novos donos da TAP. Finalmente.

É um processo que dura há quinze anos. Começou num governo de António Guterres (!) quando já era evidente que o estado português não conseguia suportar os recursos financeiros que uma transportadora aérea moderna exige. Note-se que um dos responsáveis, à data Minstro dos Transportes era… Eduardo Ferro Rodrigues. O hoje líder parlamentar do Partido Socialista subscreveu na altura o Orçamento de Estado para 2002 que previa explicitamente a reprivatização da TAP até junho de 2002, decidida já pelo mesmo governo em 2000. Sentado na mesma sala com o mesmo compromisso estava o Ministro da Justiça. Chamava-se António Costa, talvez o leitor o conheça.

Desde então vários Governos tentaram e por várias razões falharam em levar o desiderato de Ferro e Costa a bom (aero)porto. Pouco antes de telefonar à Troika porque tinha estourado o dinheiro do Estado português, Sócrates escreveu em março de 2010 e em março de 2011 o mesmo objetivo: privatizar a TAP. Igual inequívoca vontade está escrita no Memorando com a Troika.

Posto isto, quando este Governo consegue um objetivo que atravessou todos os governos desde 2000, são de estranhar algumas reações.

Recordemos que a TAP tem dívidas na ordem de grandeza de mil milhões de euro. Isso em si não seria de assustar, se tivesse ativos (aviões, instalações, etc.) que cobrissem esse valor. Não tem. Se se vendesse tudo que pertence à TAP ainda ficávamos a dever cerca de 500 milhões de euro – os chamados capitais negativos. A TAP, como a generalidade das transportadoras aéreas passa alguns anos com números positivos (lucro) mas num só ano de prejuízo deita abaixo cinco anos.

Quando por isso António Costa (recordo que era responsável no Governo que pela primeira vez quis privatizar a TAP) diz que quer reverter o negócio e que acha “escandaloso que a TAP tenha sido vendida por um valor inferior às das contratações dos mercados de futebol” a minha única reação é perguntar “o que é que vai na cabeça desta gente?”. Que raio de reações são estas de quem quer chefiar o governo? Como nunca lá chegará são “bocas” sem consequência, mas é lamentável que se tomem os portugueses por parvos, na luta por um votinho de alguém menos esclarecido.

Portugal junta-se ao crescente número de países que não detêm uma transportadora aérea com os riscos que isso traz. Avancemos que há mais país para governar. Sem comentários tristes e demagógicos.

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