O desaire e a campanha

Ao contrário do que muitos esperavam do período pós-Troika, 2015 está longe de ser um ano melhor para os portugueses. O Orçamento do Estado para o próximo ano, apesar de todas as operações de maquilhagem, não engana.
Governo do “que se lixe as eleições”, deu mais uma volta de cento e oitenta graus e o que a forma como o OE e a reforma do IRS têm vindo a ser apresentados demonstra é que afinal as eleições contam a ponto de se ter encetado uma descarada campanha enganosa.

1. Sob a capa de uma pretensa baixa de impostos, anuncia-se que haverá uma redução do IRS, mas não de uma forma clara e transparente com uma diminuição dos descontos. Não. O que se anuncia é que uma parte deste será devolvida no próximo ano se a nível da arrecadação e do combate á fraude e fuga fiscal se atingir um resultado acima do previsto.

Passos Coelho tentou, assim, minorar o desconforto do seu parceiro de coligação, depois de este ter vindo a público dizer que é preciso baixar a carga fiscal e tenta criar nos portugueses a ilusão da diminuição dos imposto. Uma solução verdadeiramente surpreendente ao estilo: prometemos antes das eleições e quem vier que pague por nós.
Temos que reconhecer que apesar de não ter mérito, esta proposta não deixa de revelar imaginação e um elevado grau de desfaçatez. Sobretudo quando depois de fazermos as contas chegamos à conclusão que este orçamento faz aumentar a carga fiscal sobre cada um de nós em aproximadamente mais de 170€. Uma autêntica “banha da cobra”.

2. Outra medida insistentemente repetida é aumento das reformas. Contudo, vermos um Governo que acabou com o Complemento Solidário para Idosos – que garantia que nenhum idoso, sem outros recursos para lá da sua pensão, viveria abaixo do limiar da pobreza – fazer tanto alarde em torno de aumentos entre 70 cêntimos e pouco mais de 2€ é algo verdadeiramente vergonhoso e que mostra bem a matreirice de quem tudo o que pretendo é tapar o sol com a peneira eleitoral.

3. Uma das bandeiras da coligação foi sempre a necessidade de mudar o paradigma económico, diminuindo o consumo interno e fazendo crescer as exportações. Se analisarmos as previsões inscritas neste orçamento verificamos que o crescimento estimado para o próximo ano é de 1,5% e que para este é feito à custa de um contributo em 1,2% do consumo interno e em 0,3% das exportações. Fica, agora, definitivamente provada a falência da estratégia de inversão do modelo económico tantas vezes enunciada por este Governo.

4. Os funcionários públicos continuarão a ver os seus salários reduzidos sem que, ao contrário do que se chegou a ser anunciado, se perspective sequer uma reposição paulatina das progressões nas suas carreiras. Os hospitais vivem em estado de pré-ruptura, a segurança social está muito abaixo do limiar mínimo, as escolas vivem mergulhadas no caos e, entretanto, anunciam-se mais rescisões.
Afinal, para que é que serviram estes três anos de aperto de cinto se tudo continua na mesma e não se perspectiva qualquer mudança de rumo?
Venha um novo Governo porque este já só aguarda o seu enterro.

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