O desgoverno “Gold”…

O debate do Orçamento do Estado 2015 acabou reduzido a um penoso exercício de arrastamento do Governo e da sua linha política de sobre-austeridade.
Quando Jean-Claude Juncker se prepara para apresentar, até ao Natal, um pacote para o investimento público no valor de 300 mil milhões, a maioria PPD/PSD-CDS/PP persiste em repetir a receita da recessão, insensível a um país que se agita num incontornável desejo de mudança que se confirma a cada nova sondagem.
No meio do estado de desgaste em que o Governo se encontra – ainda sob o efeito das ondas de choque provocadas pelos recentes problemas na justiça e na educação – somos confrontados com o caso dos “vistos Gold” cuja dimensão ainda está bem longe de ser cabalmente conhecida.
A investigação judicial está em curso e é nessa esfera, sem ingerências da intervenção política, que, devem ficar as questões de corrupção e outros crimes possam ter estado ligados à aplicação deste programa.
Contudo, independentemente do que se vier a apurar, não podemos ficar indiferentes à  iniquidade de uma medida que discrimina imigrantes em função do dinheiro que possuem, ou não.
Mal surgiram as notícias sobre este caso de corrupção logo se agitaram algumas santas almas para esclarecer que outros países têm colocado em prática planos deste idênticos. É simplesmente ridícula, para não dizer outras coisas, a forma como se invoca o exemplo de outros países para dar cabimento àquilo que a realidade nos mostra ser um erro.
O que o governo promoveu foi a venda pura e simples de direitos de cidadania e livre circulação no espaço europeu em troca de: transferências de capitais acima de mil milhões de euros; realização de investimentos geradores de dez postos de trabalho; ou compra de casas acima de 500 mil euros.
Criamos assim dois tipos de imigrantes aqueles que, por serem pobres têm de suportar as maiores tormentas até conseguir obter qualquer garantia de permanência entre nós e aqueles que tendo muito dinheiro podem dedicar-se livremente à lavagem do mesmo, a partir do nosso país, a troco de uma inversões de capital nada exigente.
Num momento em que diariamente se assiste à tragédia da morte em pleno mar de milhares de migrantes pobres quando tentam alcançar solo europeu, uma medida como esta redunda, no mínimo, num exercício de mau gosto.
Nem mesmo o argumento da atração de investimento e criação de emprego, insistentemente acenado pelo Governo, salva os “vistos Gold”. Os números não enganam: apenas três dos vistos concedidos se ficaram a dever ao investimento em projetos geradores de emprego tudo o resto deve-se apenas à compra de casas.
Este episódio arrisca-se a ficar para sempre como o triste epílogo da história da venda de um país aos pedaços. É lamentável que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas não tenham a lucidez que teve Miguel Macedo e não percebam que este Governo acaba de perder completamente a autoridade que governar exige e não se demitam também. Diante de um escândalo, como este, que abala, de forma grave, a confiança dos cidadãos no Estado e a imagem de Portugal essa era a única saída digna! Quanto ao senhor Presidente da República, só me resta perguntar se ainda respira.

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