O Dilema

Apesar de não se ter iniciado ainda a campanha eleitoral para as próximas eleições legislativas de outubro, a verdade é que os portugueses já se encontram desde há algum tempo em período de reflexão sobre em quem confiar o seu voto, cogitando sobre as propostas e concernente credibilidade das diferentes forças políticas concorrentes.

Com efeito, há um ano atrás, os portugueses sentiam o país perdido, incapaz não só de reganhar a credibilidade perdida perante os seus pares europeus mas, acima de tudo, incapaz de se auto-regenerar internamente retomando um percurso de recuperação económica, social e de esperança nas soluções políticas propostas.

Os três anos anteriores tinham sido absolutamente dramáticos para grande parte da Nação com cortes económicos inusitados, uma forte insensibilidade social, um aumento quase obsceno dos impostos, e sem que os portugueses vislumbrassem um laivo sequer de justificação para tanto aperto gestionário, uma vez que os parâmetros estatísticos continuavam a empurrar o país para o abismo e para um empobrecimento no mínimo anacrónico.

Ora, foram, de facto, três anos de uma encruzilhada medonha para os portugueses, e tão medonha que todos nós nos deixamos levar pela enxurrada de dramatismo que tal realidade nos incutiu, desacreditando do nosso próprio futuro.

Hoje, um ano passado, parece que aqueles parâmetros ganharam alma e os seus números, redirecionaram o país, inequivocamente, para o caminho da esperança.

Hoje os portugueses reconhecem, independentemente da sua filiação partidária, que a dignidade do país perante os seus pares se restabeleceu, e que a recuperação interna começa definitivamente a influenciar as diferentes valências económicas e sociais da vida da Nação.

Hoje respira-se em Portugal um sentimento, que se amplia, de que terá valido a pena tamanho esforço de contenção e que aqueles três anos de profusa austeridade poderão valer anos de desenvolvimento, crescimento e, mais importante, confiança, na idiossincrasia desta Nação quase milenar que já muito deu e que ainda dará ao mundo.

Os portugueses encontram-se portanto a viver este complicado dilema de terem que dentro de um mês fazer uma escolha essencial: definirem quem os governará nos próximos quatro anos. E, apesar de a campanha eleitoral não se ter ainda iniciado, já cogitam, já pesam argumentos, já sentem a premência de saberem escolher convenientemente, porque reconhecem que o esforço que fizeram, tendo sido objetivo e doloroso, só os dignificou, porque os tornou mais adultos como Nação e porque lhes incutiu inexoravelmente a noção de que sem verdade, sem esforço, sem trabalho, o futuro tem apenas espaço para aquilo que lhes aconteceu nos últimos anos.

, ,