O Edifício do Heroísmo

Por José Luís Ferreira

Recentemente, por iniciativa da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses, a Assembleia da República discutiu em plenário uma petição com milhares de subscritores, através da qual se solicitava a intervenção da AR para a concretização do “Tributo aos mártires do Seculo XX” no local onde funcionou a sede da PIDE, no Porto.

A este propósito, recorde-se que desde o inicio da década de 30 do século XX até ao dia 25 de Abril de 1974 terão passado pelo edifício do Heroísmo, cerca de 7.600 cidadãos. 7.600 pessoas, democratas ou antifascistas, que foram presas, interrogadas, sujeitas a humilhações e torturas várias, algumas chegando até à morte.

O edifício, onde agora se localiza o Museu Militar do Porto, é assim um local emblemático da luta antifascista, fazendo parte do património e da memória da resistência. Memória que nunca poderá ser esquecida e a quem o país deve uma justa homenagem, porque todos os que resistiram são heróis e o local por onde todos eles passaram deve ser um ponto de encontro de todas as histórias que constituem afinal a nossa história enquanto país.

Foi neste sentido que na década de oitenta foram realizadas diversas diligências para a classificação do edifício como de interesse público, com vista a evitar a sua possível alienação, destruição ou descaraterização.

Nos últimos anos em particular o núcleo do Porto da URAP, assumiu uma persistente defesa do edifício, enquanto local de encontro da Memória Nacional, apresentando em 2009 um projeto, compatível com o Museu Militar, para a salvaguarda do património.

Mas em 2013, a URAP foi confrontada com um despacho do Ministério da Defesa, segundo o qual «não é oportuno qualquer evento deste tipo em instalações militares».

Ora, esta postura do Governo não deixa de ser estranha, não só porque este projeto em nada colide com o Museu Militar do Porto, ou com a sua exposição permanente, mas também porque a Memória não pode ser escondida nem esquecida. Uma Democracia deve recordar e ter presente o seu passado e sobretudo recordar todos aqueles que por ela lutaram e que a tornaram possível.

Por isso mesmo, vamos esperar que o Governo tenha estado atento ao debate e que mantenha o Museu do Porto, identificando os percursos e espaços ou salas utilizadas pela PIDE, para que todos aqueles que passaram pelo Edifício do Heroísmo, resistindo, continuem na nossa memória coletiva.

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