O elogio da política

Escrevo este texto num momento em que os dias ainda estão povoados pelo impacto da morte do Dr. Mário Soares, à qual, no meu caso, se associou a partida precoce do meu querido amigo Guilherme Pinto.

Os meios de comunicação social e as redes sociais estão pejados de belos textos sobre a vida e obra de Mário Soares, o que torna difícil a procura de qualquer traço de originalidade.

Por isso, estou certa que todos perceberão o atrevimento da decisão de escrever sobre “o meu” Mário Soares.

Nasci em 1968, num Portugal amordaçado pela ditadura, retrógrado, fechado, onde grassavam o analfabetismo e a miséria. Devo a Mário Soares e a todos os antifascistas, a possibilidade de ter crescido, a partir dos seis anos de idade, num Portugal democrático. Devo sobretudo a ele e à sua visão do futuro, a possibilidade de me ter tornado mulher num Portugal desenvolvido, aberto, moderno, que me permitiu ser também cidadã da Europa e do Mundo.

Não há palavras suficientes para lhe prestar tributo por tudo isto e penalizo-me por não o ter compreendido no seu último grande combate eleitoral.

Hoje, de olhos postos no futuro, escrevo sobre desafio que cai sobre todos nós de honrar o exemplo de quem fez da sua vida um elogio à política (parafraseando o título de um dos seus livros).

Num momento em que o arrivismo, o tacticismo, a tecnocracia e certas eminências pardas e parvas, temerosas do contraditório, vão tomando conta do espaço político e o vão corroendo, devemos a Mário Soares o exemplo maior de quem sabia que a política é algo que se vive com a naturalidade e a intensidade da respiração. De quem sempre foi o mais perfeito espelho da tríade que faz todos os grandes políticos – razão, coração e coragem. De quem sempre recusou ser dono da verdade fazendo do Partido Socialista e da sua intervenção cívica e política um espaço de tolerância e pluralidade. De quem, tal como Churchill, sabia que em política se pode “morrer” e “renascer” diversas vezes e jamais vacilou na defesa das suas convicções sendo capaz de ousar riscos impensáveis para outros, sempre pronto para o bom combate e para um novo recomeço.

Nos últimos anos, o peso da idade e o desgosto da morte de Maria Barroso, a outra face da sua moeda, tinham-no afastado da ribalta política, mas sabíamos que ele estava cá, qual porto de abrigo, verdadeira reserva moral de todos nós. Há, por isso um sentimento de vazio difícil de preencher que nos assola depois do seu desaparecimento.

Até sempre, Dr. Mário Soares! Porque… a luta continua!

, ,