O espelho e o falso moralista

A demissão de Vítor Gaspar, seguida da demissão irrevogável, mas nem tanto, de Paulo Portas abriram espaço a uma crise política que Cavaco Silva prolongou por quase duas semanas, em vez de resolver com a celeridade que a situação do país impunha. Era evidente que os partidos que suportam a coligação não quereriam abrir mão das medidas políticas que têm vindo a implementar e dos compromissos que têm vindo a assumir com a Troika e que o PS não poderia abrir mão de ser oposição.
O PS, depois de ter sido sistematicamente colocado de fora de todos os processos negociais com a Troika, ao longo destes dois anos, depois de ter visto as suas propostas sistematicamente rejeitadas e tantas vezes ridicularizadas, com o beneplácito do Presidente da República que nunca se lembrou da importância do diálogo com a oposição, não podia desistir do programa que foi construindo, até porque sabe que o tempo, inevitavelmente,  acabará por lhe conferir razão.
Abdicar de se afirmar como alternativa, desistir em absoluto ou em parte daquilo que tem defendido, seria um acto suicida para o PS, com graves repercussões para o país e para o sistema democrático. Os partidos políticos do arco do poder ficariam amarrados a um acordo e Cavaco Silva, o político português com mais anos no activo teimando com ilimitada hipocrisia em negar essa condição, teria feito imperar negação da política por via da destruição das alternativas.
Diante da ruptura das negociações Cavaco Silva veio dizer o óbvio, dentro daquilo que tem sido o seu quadro de intervenção. O Governo tem uma maioria parlamentar que o suporta e continuará em funções até 2015. No final da comunicação do Presidente da República ao país, veio-nos à mente o célebre adágio popular: tudo como dantes, quartel-general em Abrantes… Contudo, não é bem assim. Cavaco Silva construiu um ardiloso móbil para disfarçar a “mão por trás do Governo” e passou a poder dizer que este só se mantém em funções até 2015 porque os partidos não deram sinais de poderem gerar uma solução estável.
Cavaco Silva podia ter outra atitude em todo este processo? Podia e devia! Mas não resistiu a continuar a ser cúmplice das políticas deste Governo que se recusou, mais uma vez, a inverter o rumo que só tem condenado o país ao agravamento da recessão em que está mergulhado. A partir de agora, ninguém tem mais dúvidas quanto ao que o futuro mais próximo nos reserva: mais falências, mais pobreza e mais desemprego. Há, contudo, que registar um ganho no balanço desta crise – ao olharmos para trás e compararmos a atitude do Presidente em relação a este Governo com a que teve em relação ao Governo do PS fica definitivamente claro que estamos, de facto, diante de um Governo de iniciativa presidencial.
Há sempre um espelho à espera de um falso moralista!

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