O Imbróglio

Os resultados eleitorais deixaram o país à beira de um ataque de nervos. Não pelo resultado em si, mas porque a nova esquerda parlamentar decidiu num inusitado processo de fuga para frente, abrir todos os gavetões da sua convicção e lá guardar, rapidamente e à toa, todos os seus grandes princípios com que se apresentaram às urnas.

Chegaram atabalhoadamente à conclusão de que muito mais importante do que respeitar o sentido dos resultados e a existência inequívoca de uma força vencedora das eleições, haveria que explorar a matemática parlamentar e conspirar no sentido da inversão daqueles resultados potenciando o que jamais foi possível acontecer desde a revolução de Abril. Tal alteração de postura deixou todos atónitos, mesmo muitos dos seus próprios eleitores e apaniguados, porque chegou só depois dos resultados eleitorais, sem aviso sério, à laia de solução de última hora portanto, sem sustentabilidade e sem credibilidade.

Paradoxal é a disponibilidade do Partido Socialista em participar desta interesseira estratégia, desresponsabilizando-se dos parcos resultados que obteve no processo e apresentando-se como se fosse o garante dos princípios, da democracia e do futuro dos portugueses. Pois o PS foi, com toda a certeza, o grande derrotado destas eleições, não logrando atrair para si o voto dos muitos descontentes por quatro anos de crise, de austeridade, de sofrimento.

Estamos, de facto, a viver um novo paradigma na política portuguesa em que a esquerda mais radical, aquela que sempre questionou os suportes do nosso desenvolvimento, das nossas opções nas últimas décadas, e que, por isso, se têm mantido unicamente como força de protesto arredada dos areópagos da governação efetiva, alterou o rol das suas prioridades, abandonando os seus princípios em prol de uma influência mais interventiva no desenho dessa governação. Posicionou-se no caminho da suscetibilidade de fazer o poder, e disse que sim ao PS, apenas porque sim, garantindo que só não é Governo se não quiser. Agarrou-se às contas de somar deputados como se fosse o único efeito dos resultados eleitorais, relativizando maiorias, quitando algumas promessas e simplesmente anulando outras, fazendo crer ser o bastante para garantir a tão necessária estabilidade que o país precisa.

Ora, felizmente temos ainda um Presidente da República, que enquanto garante dos princípios, da constituição e da seriedade politicas, saberá claramente restituir o decoro e o bom senso à prática política em Portugal.

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