O novo presidente

Foi uma posse marcadamente atípica.

Marcelo desprendeu-se do formalismo cinzento que se encrustou, nos últimos anos, em tais cerimónias, e em que Cavaco Silva terá sido seu maior seguidor cumprindo religiosamente o anacrónico método de se dirigir aos portugueses no mesmo tom monocórdico, cansativo e triste.

Em poucos dias Marcelo mostrou ser uma lufada de ar fresco na escura e bafienta presidência da República, demonstrando que a importância e a responsabilidade no exercício do cargo não são valências incompatíveis com uma postura emocional, afetiva, genuína.

Marcelo afastou-se de uma certa prática autómata que parecia perseguir Cavaco Silva, que apenas falava quando o protocolo deixava, que apenas se ria quando o protocolo dissesse, que apenas “era” quando o protocolo queria que fosse. Marcelo trouxe sentimento e humanismo à figura do Presidente, aproximando-o dos cidadãos e reforçando a noção de ser mais um entre eles, apenas que “Primus inter pares”.

Claramente que a presidência da República irá ganhar um novo elan, uma nova dinâmica na sua relação com os portugueses, mostrando-se renovado o pacto de representatividade que estes, constitucionalmente, quiseram atribuir ao cargo. Com esta postura de proximidade desmistificam-se velhos anátemas, por ventura e até agora justificados, de uma presidência elitista, inacessível ao povo e com uma agenda própria, manifestamente descomprometida com as prioridades da comunidade

Marcelo Rebelo de Sousa, homem sábio, inteligente e profundamente conhecedor do papel da política no incentivar da disponibilidade individual de cada cidadão em contribuir para uma maior qualificação da comunidade em que se insere, não teve qualquer pejo em recolocar a presidência paredes meias com o povo, lado a lado com os seus anseios, e assim merecer do mesmo povo a sua verdadeira simpatia tão arredada ultimamente da relação recíproca existente.

Nada nos move ou moveu contra a pessoa de Cavaco Silva. Contudo, a realidade prática, apesar de ainda muito inicial, fez sobressair um estilo do atual Presidente radicalmente menos mecânico e indubitavelmente mais apto a perceber a filosofia do cargo, tornando-o bem mais justificado e inclusivo no âmbito da organização superior do Estado, num tempo em que o comum dos cidadãos começava a questionar o porquê de um órgão que parecia existir apenas porque existia, pois vivia virado para si sem qualquer efeito prático válido na vida os portugueses.

Veremos o que o futuro próximo nos reserva mas, esta ainda parca experiencia, já teve o condão de espraiar entre os portugueses uma dinâmica de esperança e confiança, que muito podem contribuir para a alteração do paradigma psicológico em que estes se encontram.

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