O que é preciso para Portugal escapar a um segundo resgate?

1 – Alguns indicadores económicos revelados nas últimas semanas têm sido amplamente aproveitados pelo Governo para tentar criar na opinião pública a ideia de que o pior da crise já passou, e que o país está já a iniciar a sua lenta recuperação. Mas tanto mais os partidos da coligação se esforçam para apregoar um moderado optimismo, mais a oposição procura evidenciar o seu pessimismo pelo rumo em que o país se encontra. Daí que, para o cidadão comum, nem o optimismo do Governo nem o pessimismo das oposições merecem grande atenção, e ainda menos credibilidade. Ou seja, o povo avalia a situação da crise em função do que sente no seu dia-a-dia, e da forma como testemunha a sua realidade envolvente.
Aliás, os portugueses já por diversas vezes sentiram na pele a contradição destes discursos, para depois testemunharem retrocessos gravíssimos, e acusações mútuas entre partidos do poder e partidos da oposição, justamente porque nem uns nem outros, no tempo certo, foram capazes de dizer toda a verdade e só a verdade ao eleitorado. Desiludam-se, pois, os que ainda pensam que os cidadãos comuns acreditam que tudo o que lhes vendem na retórica política, e ainda menos quando o ambiente é dominado por efeitos eleitorais. E desiludam-se também os que continuam a pensar que, com mais ou menos propaganda, seja ela de quem for, os cidadãos hão de continuar a serem conduzidos como rebanhos amestrados por pequenos truques de mágica.

2 – É neste contexto de descrédito generalizado na classe política que, nas últimas semanas, os cidadãos mais esclarecidos procuram antever se no próximo ano Portugal terá condições de voltar a financiar-se normalmente nos mercados clássicos, ou se, ao contrário, o país terá de negociar no seio da União Europeia um segundo resgate. E esta não é matéria irrelevante para os portugueses em geral. Como não é matéria que apenas interesse aos mais familiarizados com a política. É que da resposta a esta questão dependerá muito das nossas vidas individuais e muito do nosso destino colectivo no futuro próximo. E sendo certo que o actual programa de ajuda financeira ao país termina em Junho próximo, é por demais evidente que cada dia que passa a questão torna-se mais pertinente, e mais preocupante.
Parece claro aos olhos dos especialistas em finanças públicas que mesmo que seja possível evitar um segundo resgate, Portugal não conseguirá as boas graças dos financiadores externos sem ter, no mínimo a sua retaguarda, um programa financeiro cautelar, assegurado pela União Europeia. Um programa cautelar que mais não será do que uma espécie de seguro, que garantirá a Portugal a possibilidade de recorrer a financiamento no Banco Central Europeu sempre que os mercados não estejam disponíveis para o fazer, ou exijam juros a taxas consideradas inaceitáveis. Ainda assim, este seria o melhor dos cenários possíveis, após a saída formal da troika, em Junho próximo. Mas não estamos realmente livres de ir mais longe, e precisarmos de um novo programa de assistência, ou seja, o tal segundo resgate.

3 – Mas como poderemos, então, evitar um novo garrote financeiro, exigindo um novo programa de assistência internacional? Tudo dependerá da nossa capacidade para equilibrar as contas públicas, atingindo os níveis de défice que nos são impostos, ou será antes uma questão de capacidade negocial junto dos nossos parceiros europeus? Se para o Governo o que conta é equilibrar as contas públicas e reformar o Estado, para a oposição o importante é conseguir renegociar quer as metas do défice, quer as condições de financiamento. E mais uma vez, no meio de acusações mútuas sem sentido perceptível entre Governo e oposições, os cidadãos ficam perplexos, e profundamente baralhados sobre quem, de facto, terá a razão pelo seu lado.
É cada vez mais claro que a única forma de clarificar o caminho que deveríamos seguir seria através de um acordo alargado entre a coligação governamental e a oposição socialista. Acordo que o Presidente da República tentou no auge da última crise política, mas sem sucesso, e que parece agora apostado em tentar de novo, na sequência das eleições autárquicas. Não é crível que Cavaco possa, à segunda tentativa, ter sucesso neste seu objectivo. Porque parece cada vez mais claro que o líder socialista manterá a sua recusa a qualquer entendimento com o Governo, preferindo gerir a tensão política até às eleições legislativas. E assim sendo, o preço de tudo isto é ter a certeza que o país, em vez de encontrar um rumo, continuará amarrado de pés e mãos…

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