O que faz correr Mário Centeno na luta pelo rigor orçamental?

1– A chegada de Mário Centeno à presidência do Eurogrupo rapidamente permitiu constatar que o ministro das Finanças vestiu a camisola da moeda única, e muito dificilmente parece disposto a arrancá-la da pele. Bem pelo contrário, pode mesmo dizer-se que, para além da camisola, Centeno já não dispensa o casacão que lhe conforta o corpo nos frios dias de Bruxelas. O mesmo é dizer que o ministro das finanças portuguesas é cada vez mais o ministro das finanças europeias…

Esvaiu-se assim, em poucas semanas, a esperança dos que acreditavam que Centeno levaria para a Europa a suave e romântica brisa da política financeira portuguesa, impondo aos seus pares uma leitura mais humanizada do rigor orçamental. Bem ao contrário, Mário Centeno está a demonstrar que, afinal, preferiu vestir o capote da ditadura orçamental dos falcões da moeda única, e que este é o caminho que Portugal também deve seguir. Caso para dizer: volta, Gaspar, que estás perdoado!

2– Se alguém tiver dúvidas sobre a leitura política que aqui é feita nos parágrafos anteriores, então deve analisar com todo o rigor o Programa de Estabilidade que o ministro das Finanças acaba de dar a conhecer ao país, e que vai ser apresentado à Comissão Europeia como cartilha de orientação e compromisso de honra do governo português para vigorar até 2022. Nem o facto de no próximo ano haver eleições legislativas fez com que Mário Centeno se limitasse a definir a sua política financeira apenas para o horizonte da presente legislatura.

Como se explica tanta ousadia? Muitos pensarão que isto traduz apenas a inabalável convicção de Centeno de que o PS irá continuar a ser governo na próxima legislatura. Todavia, mesmo que este possa ser o pensamento dominante da família socialista, politicamente não havia necessidade de ir tão longe. Pior que isso, na lógica da mera tática eleitoral são mais que duvidosos, para um partido de esquerda, os ganhos políticos desta estratégia, muito mais adequada ao discurso da oposição de direita.

3– Aqui chegados, é oportuno perguntar: o que faz correr Mário Centeno na luta pelo rigor orçamental? A resposta só pode ser uma: Centeno está mais interessado em agradar aos seus pares europeus do que aliviar a tenaz dos impostos que esmaga a classe média portuguesa. E por isso se profetiza já por aí que a grande motivação de Centeno é a sua carreira pessoal, em disputa acelerada nas pistas de um qualquer grande cargo internacional, mas de preferência nas instituições europeias.

É verdade que a concretizarem-se as metas económicas e financeiras previstas no Programa de Estabilidade 2018/2022 as contas públicas ficariam mais robustas, para a economia portuguesa resistir melhor a uma qualquer ameaça de nova crise. Mas não deixa de ser irónico que um partido que foi tão crítico à receita da austeridade imposta pelo anterior governo tenha tão rapidamente concluído que, afinal, as margens de manobra para fazer diferente apenas dependem da conjuntura internacional, e dos favores circunstanciais de comunistas e bloquistas. E, convenhamos, este governo foi mesmo um sortudo…

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