O que faz falta…

1. No início do mandato, o primeiro-ministro acossado pela preocupação dos seus companheiros de partido, face à dureza das medidas aplicadas pelo Governo e os efeitos desta junto do seu eleitorado, sentenciou no meio de uma intervenção: “Que se lixem as eleições!”
As eleições pouco interessavam diante da messiânica tarefa de que a maioria de direita se afirmava imbuída e estava tudo dito.
Pouco interessavam até ao momento em que o calendário começou a anunciar a aproximação das europeias. Mal as máquinas partidárias começaram a aquecer os motores para a campanhas das eleições europeias, o assunto logo começou a mudar de figura e o aumento do salário mínimo nacional, até aqui sempre rejeitado, foi de imediato colocado na agenda política pelo próprio primeiro-ministro.
Não há mal nisso e o PS até já tinha feito diversas vezes essa proposta, como forma de minorar as dificuldades daqueles que têm rendimentos do trabalho mais baixos e dinamizar a economia. O que choca é a forma absolutamente populista como é feito tal anúncio, com esta pressa todo, em cima da data das eleições, quando se prevê que a aplicação da medida só ocorrerá no próximo ano.
A clareza, a transparência e o bom senso exigiam outra postura, principalmente da parte de quem anunciou renegar interesses eleitoralistas.

2. O secretário de Estado da Administração Pública, investido das funções de coordenador do grupo de trabalho para a reforma do sistema de pensões, decidiu promover um encontro com jornalistas durante o qual, em “off”, passou informações sobre a nova fórmula de cálculo das pensões, cuja evolução passará a ficar indexada à natalidade e ao crescimento económico.
Tenho sérias dúvidas sobre os problemas de sustentabilidade que estão a ser apresentados como justificação para estas alterações. Sobretudo, porque o Governo socialista procedeu a uma reforma que foi alvo das melhores referências por parte da OCDE, exatamente por ter introduzido medidas que permitiam garantir a sustentabilidade do sistema, mas aguardarei a apresentação dos estudos de suporte para devida ponderação.
Contudo, independentemente de tudo isso, as opções anunciadas mostram-se, desde já, perigosas e muito longe de merecer consenso.
Introduzir a evolução demográfica e o crescimento económico como factores de ponderação da evolução das pensões, só pode travar e mesmo a fazer diminuir os rendimentos de um dos grupos da população portuguesa mais expostos à pobreza.
A evolução demográfica tem sido negativa e tende a manter-se assim e a indexação ao crescimento económico, exporá os idosos a ciclos de maior pobreza em fases de crise. A tudo isto acresce que a partir do momento em que forem aplicadas tais medidas passaremos todos a saber quais as nossas obrigações, no que diz respeito a descontos para o sistema de pensões, mas jamais conseguiremos ter a certeza daquilo com que podemos contar por parte do sistema.
Facto curioso em toda esta história, é que o primeiro-ministro, diante do ruído que a revelação da informação gerou, veio a público dar um puxão de orelhas ao secretário de Estado. Atitude prontamente contradita, passados alguns dias pela revelação de um relatório do qual consta o compromisso do Governo junto da União Europeia de introduzir estas mudanças.
Sempre que assisto a mais uma destas “trapalhadas” já só me ocorre perguntar: ainda há quem consiga confiar neste primeiro-ministro e neste Governo?

3. Comemoramos os 40 anos do 25 de Abril. Uma celebração que fica para sempre marcada pelo destempero da resposta da presidente da Assembleia da República à vontade manifestada pelos militares de Abril de falarem na sessão comemorativa desta efeméride.
Lamento, mas concorde-se ou não com a pretensão destes militares, ao contrário do que foi dito pela senhora presidente, o problema não é deles. Não é só deles, é de todos nós.
Diante do clima político em que nos encontramos mergulhados “o que faz falta” é mesmo “avisar a malta”.

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