O Umbigo

O processo está em curso e o primeiro grande objetivo foi já tomado. Impedir o atual Governo de governar. Dizem que não tinha legitimidade pois os partidos que o suportavam perderam nas últimas eleições centenas de milhares de votos. E dizem que o povo os quis afastar do poder ao lhes retirarem a maioria absoluta de que dispunham. Então, pus-me a pensar: entendem que perder votos e perder a maioria absoluta é motivo mais que suficiente para arredar da governação a força política (coligada) mais votada, com 38% dos votos! Mas, já não é sequer criticável, juntar artificialmente os votos dos partidos dos fundos, que não ultrapassam os 18%, e fazer deles o sustentáculo de uma nova governação protagonizada pelo Partido Socialista. Aí sim, é a democracia a funcionar e a demonstração da dinâmica da esquerda em prol dos interesses do País.

Para o Partido Socialista os resultados eleitorais não merecem outra conveniente leitura política, que a derrota da direita e a chegada do tempo de, pela primeira vez em 40 anos de democracia, levar toda a esquerda para o poder mesmo aquela que desconhece o conceito de responsabilidade.

Entende o PS que ser-se a força mais votada não pode significar mais que o protagonismo de uma enorme derrota eleitoral por se ter perdido a maioria absoluta. Defende que o voto maioritário do povo na coligação PSD/CDS não pode implicar qualquer consequente leitura política porque a matemática diz que a esquerda teve mais votos. Como se a política não tivesse a sua própria dinâmica, a sua própria idiossincrasia, e se limitasse a ser a pura soma dos números. Pois não é. Em política todas as ações são consequentes, são merecedoras de uma leitura comunitária, isto é, o conjunto dos votos não se restringe à sua mera soma individual, ganhando antes uma amplitude, um corpo coletivo, refletor de dinâmicas sociológicas com repercussões políticas evidentes. Por assim ser, não é igual perder-se uma maioria absoluta mas garantir-se a maioria relativa, do que perder-se igualmente esta.

Aquela leitura política diz-nos que os portugueses quiseram limitar a autonomia de fazer por parte da coligação PDS/CDS invocando-lhe outros consensos, mas que inequivocamente a queriam a continuar a governar o País.

O Partido Socialista no entanto, num indecoroso processo de abuso da sua posição de partido charneira, decidiu olhar apenas para o seu umbigo e, desconsiderando a natural leitura política dos resultados eleitorais, preocupou-se unicamente em garantir o futuro político do seu líder, condenado que estava a ser implodido pelos seus pares por tão parcos resultados em função da conjuntura.

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