Os truques cínicos dos consensos e os jogos partidários eleitorais

1 – No verão passado o país viveu algumas semanas sobre a ameaça do caos político, na sequência da demissão do então ministro das finanças, Vítor Gaspar, a que se seguiu a ameaça de demissão do Governo, anunciada como irrevogável, protagonizada por Paulo Portas. Muita gente já se esqueceu do melodrama em que o país político esteve mergulhado durante semanas. É por isso importante recordar que Passos Coelho esteve então na corda bamba, quando constatou que o Presidente da República lhe “congelou” uma equipa governativa recauchutada, com Cavaco Silva a forçar até ao limite um acordo alargado dos partidos do arco do poder.
Após negociações em várias frentes, o desejado acordo pretendido por Cavaco Silva não foi conseguido, porque o líder do Partido Socialista recusou qualquer solução que não passasse por eleições imediatas, ao tempo. Ora, é também bom recordar, a proposta do Presidente da República, ao tempo, era a de, na sequência do desejado acordo alargado, as eleições seriam antecipadas para o início deste verão. Não tendo sido possível esse consenso partidário alargado, o Presidente da República optou por dar posse ao Governo remodelado por Passos Coelho, e onde Paulo Portas se manteve, trocando a pasta dos negócios estrangeiros pelo lugar de vice-primeiro ministro.

2 – De então para cá, ficou claro que o líder do Partido Socialista nunca mais daria a mínima abertura para qualquer consenso partidário que pudesse, direta ou indiretamente, reforçar as políticas de Passos Coelho. Da mesma forma que o Presidente da República nunca mais deixou de manter nos seus discursos os apelos a um consenso alargado entre os maiores partidos. Apelos a que também o Chefe do Governo se manteve permanentemente colado, na tentativa de deixar claro na opinião pública que só não há entendimento porque o líder socialista obstinadamente se mantém renitente a qualquer tipo de apoio às políticas governamentais.
Enquanto isto, o país real tem a perceção que após as próximas eleições europeias de 25 de Maio os apelos aos consensos ainda serão maiores por parte da maioria, e, seguramente, as resistências a qualquer acordo com este Governo, por parte do PS, ainda serão mais vincadas. Ou seja, desiludam-se todos os que pensam que antes das legislativas do próximo ano ainda pode haver um entendimento entre o Partido Socialista e a coligação PSD/CDS. Para os socialistas qualquer acordo a fazer, só depois do teste eleitoral…

3 – Ora, é nesta atitude que reside, verdadeiramente, um jogo cínico entre os partidos do arco do poder. Porque qualquer dos partidos democráticos sabe que a situação gravíssima em que o país se encontra só será ultrapassada com um largo consenso nacional. Nisto todos estão de acordo, ainda que nenhum dos partidos o confesse deliberadamente, para não ser acusado de fraqueza. Preferem todos colocar o discurso no tom do “desejável e aconselhável”. A questão de fundo é saber quem deve liderar o tal consenso alargado…
Perante este quadro o líder do PS faz um raciocínio de oportunidade (isto para não dizer de oportunismo político!) que é o seguinte: se o PS pode ganhar as próximas legislativas, porque há de agora fazer um acordo, em situação de subalternidade, quando o pode fazer já como líder do Governo? Resta saber se depois das eleições, quando os protagonistas trocarem de cadeira, o PS não corre o risco de encontrar pela frente a mesma indisponibilidade da parte do PSD com que hoje brinda o partido líder do Governo. Aqui sim, reside o equívoco, e o cinismo da política à portuguesa!

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