Passos terá prova de fogo nas Autárquicas de outubro

1 – As hostes dos partidos políticos andam muito agitadas com as escolhas finais dos candidatos que cada um deverá apresentar à disputa eleitoral autárquica de outubro próximo. Afinal, são 308 concelhos e 4.259 freguesias em disputa no continente e regiões autónomas. Nenhum outro ato eleitoral é tão renhido como a escolha dos dirigentes locais, naturalmente pela sua proximidade aos cidadãos, e pelos interesses individuais e de grupo que normalmente se acomodam ou vivem à sombra dos autarcas. Não espanta que cada lugar seja objeto das mais acesas discussões dentro dos aparelhos locais partidários.

Neste contexto, os dois maiores partidos (PS e PSD dominam o mapa autárquico nacional) são os que mais se atarefam na luta pela manutenção de posições, tentando, simultaneamente, reforçar o número de eleitos locais. Acresce que, sendo partidos de poder, há uma tendência natural, no cenário político global, para analisar os resultados autárquicos à luz do desempenho político da ação governativa, e, por extensão, para ação dos partidos da oposição. Factos que reforçam, naturalmente, a importância do próximo ato eleitoral. Estes são os principais motivos que explicam tantos ajustes de contas, um pouco por todo o país!

2 – Por todas estas razões, justifica-se que nos centremos nos efeitos que as próximas autárquicas poderão ter no cenário nacional. É sabido que o Partido Socialista é hoje maioritário no poder local, quer em número de presidências de câmaras, quer ao nível do número global de mandatos. Para além da vantagem de mais de quatro dezenas de municípios sobre o PSD, o PS domina também nos grandes municípios e nas capitais de distrito. Concelhos como Lisboa, Sintra, Coimbra, Gaia, Matosinhos, e muitos outros das áreas metropolitanas são hoje bastiões socialistas. E a boa imagem que António Costa tem conquistado no governo da geringonça parece facilitar-lhe a vida.

Já o PSD parte de uma posição fragilizada, pese embora ter sido o partido mais votado nas últimas eleições legislativas. Com menos mandatos autárquicos e presentemente na oposição ao nível do poder central, os social-democratas têm necessidade de encontrar nestas autárquicas um bálsamo para a sua afirmação de alternativa de poder. Mas é absolutamente claro que o seu líder, Pedro Passos Coelho, tem pela frente uma tarefa hercúlea, que muitos consideram quase impossível de ultrapassar, pois ninguém vislumbra uma reviravolta no panorama político nacional e autárquico ao ponto de fazer abanar o poder socialista.

3 – Acresce que o líder social democrata começou por colocar a fasquia das autárquicas em níveis excepcionalmente ambiciosos, ao anunciar que tinha por objetivo principal a conquista da presidência da Associação Nacional de Municípios, o que significa ter a maioria de presidências de câmaras. Ora, se levarmos em conta a diferença hoje existente entre os dois maiores partidos, tal significa que o PSD teria de manter tudo o que tem, e conquistar ao PS mais de duas dezenas de municípios. Tarefa muito difícil, quando os socialistas beneficiam da maioria existente com confortável margem, além da boa imagem governativa da geringonça.

Se, como tudo indica, Passos Coelho ficar longe do objetivo que se impôs, é praticamente certo que enfrentará um furacão dentro do seu partido. E importa ter presente que no princípio do próximo ano haverá eleições internas no PSD para a liderança, e congresso para a definição de estratégias programáticas para as legislativas de 2019. Passos Coelho é, por conseguinte, o líder partidário para quem as autárquicas representarão o maior dos desafios. Uma verdadeira prova de fogo que bem pode definir a curto prazo o seu futuro político. E no interior da família social-democrata já tudo parece colocado a postos para o que der e vier.

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