Política de beijos e simpatia pode trair o novo presidente

1 – Depois de seis meses de circo desde o início da campanha eleitoral para as legislativas, até à posse do novo chefe do Estado, a classe política tem agora as condições para se concentrar verdadeiramente nos problemas nacionais. Pelo menos é isto que esperam os portugueses, cansados de um rodopio político-partidário de que não há memória, e que na prática colocou o país em suspenso desde o verão passado.

Mas se é verdade que, pelo menos por enquanto, regressou a acalmia política, nem por isso poderemos concluir que de agora em diante tudo se processará em perfeita normalidade política. Bem pelo contrário, a mudança de protagonistas primeiro em S. Bento e agora em Belém deixa o país numa elevadíssima expectativa, para não dizermos – por enquanto será excessivo! – numa enorme incerteza, quanto à evolução da política nacional no futuro imediato.

2 – Uma vez aprovado o orçamento do estado, António Costa tem reunidas as condições para começar a governar. O país fica à espera de ver como se comportará a coligação que suporta o Governo, e, simultaneamente, como se vai desenrolar a coabitação entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. A maioria dos analistas defende que este não será um problema, sendo expectável um longo período de estado de graça…

Sejamos claros: se há razões para dar ao Governo o benefício da dúvida sobre as suas políticas de “austeridade mitigada”, há igualmente razões para acreditar que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa será um aliado convicto de António Costa, pelo menos durante o corrente ano. A grande dúvida ficará assim remetida para o desempenho da economia, quer na frente interna, quer no plano das exportações.

3 – Voltando aos novos ventos que sopram de Belém já ninguém tem dúvidas que o “Estilo Marcelo” nada tem a ver com o do seu antecessor. Nos escassos dias do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa viu crescer vertiginosamente os indicadores de simpatia, de norte a sul do país. Os banhos de multidão que vem recebendo por onde quer que passa, são indicadores indiscutíveis da sua presidência de proximidade.

Mas não tenhamos ilusões: a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa é uma espada de dois gumes. Porque se por um lado serve de válvula de segurança contra a pressão de um estado de espírito colectivo reprimido pela dureza da austeridade dos últimos quatro anos, por outro pode gerar a ideia de um sebastianismo redentor que não está ao alcance dos poderes presidenciais. Por isso, o estilo de chá e simpatia, beijos e abraços, pode converter-se rapidamente numa desilusão…

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