Portugal de luto, Portugal do lucro

A catástrofe que assolou Pedrógão Grande, no passado fim de semana, é um triste episódio praticamente sem precedentes no Portugal democrático. Sessenta e duas vítimas mortais, entre as quais trinta encontradas dentro de automóveis, dezassete na estrada, doze em zonas rurais e duas num acidente de viação. Quatro crianças entre as vítimas mortais. Sessenta e dois feridos, vinte e sete aldeias afetadas pelo fogo. O cenário dantesco deve arrepiar qualquer cidadão e deve preocupar qualquer decisor político.

Cada morte merece o nosso pesar, o nosso respeito. 62 mortes merecem mais do que isso. Merecem que, nos instantes de aflição, garantamos todo o apoio possível às famílias. Merecem, porém, que depois, olhemos para o número – 62 – e tiremos, de uma vez por todas, ilações.

Ao todo, estiveram 834 operacionais no terreno, a combater o fogo. Dezenas de corporações de bombeiros de concelhos próximos foram destacados para combater o incêndio. O número de veículos utilizado não podia ser mais elevado, dada a dificuldade em transitar nas estradas. Talvez não estejamos, desta vez, perante uma clara falta de meios para combater o fogo, mas sim, confrontados com um problema mais grave e mais profundo.

Nas pastas da Administração Interna e da Agricultura, podemos encontrar alguns caminhos a trilhar, tanto no âmbito do ordenamento do território como na reorganização florestal. Aqui reside um problema basilar: permitir a monocultura de eucalipto em parcelas gigantes de território, entre outras coisas, é literalmente lançar mais achas para a fogueira.

20% da floresta portuguesa está abandonada, o Estado não toma responsabilidade sobre ela e isso dificulta a limpeza do próprio terreno.

Por outro lado, vários estudos apontam para o perigo da monocultura, alertando para o facto desta ser uma das principais razões na tão rápida propagação dos incêndios. O problema estaria controlado se a percentagem de eucaliptal fosse reduzido, mas, neste momento, ultrapassa os 25% do total da área florestal portuguesa e quase 10% do território no seu conjunto.

Relembro que, aquando da governação da anterior maioria de Direita, Assunção Cristas, que coordenava a pasta da Agricultura, liberalizou a plantação de eucalipto em terrenos onde, até à data, não era permitido.

Para reverter esta medida em concreto e, mais do que isso, pôr fim ao abuso que a indústria de celulose faz da nossa floresta, o Bloco já teve oportunidade de apresentar, na Assembleia da República, um conjunto de diplomas que controlavam a plantação de eucalipto e outras monoculturas, em território português. Infelizmente, os interesses do papel e da madeira continuam a falar mais alto junto de PS, PSD e CDS, que reprovaram os ditos diplomas.

Qual é, então, a melhor prevenção que o país pode assegurar no combate aos incêndios florestais? Menos foguetório em tempo de incêndios e mais coragem para combater o lobby da indústria da celulose, que, há décadas, monopoliza os pulmões do país.

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