Portugueses continuam a desconfiar dos bancos

1 – Quem olha para o passado da banca portuguesa nos últimos 10 anos só pode tirar uma conclusão: os banqueiros portugueses e o Banco de Portugal não merecem a confiança dos cidadãos. E este sentimento não é nem especulativo nem exagerado. É o sentimento de quem viveu já demasiadas situações de mentira, de hipocrisia e de manipulação da boa-fé dos cidadãos que fez ruir toda a credibilidade dos responsáveis da banca portuguesa.

Durante décadas os portugueses confiaram no sistema bancário nacional, quer antes quer depois do 25 de Abril. Independentemente dos bancos serem privados ou públicos, como aconteceu após as nacionalizações de 1975, e até à sua reprivatização na década de oitenta. Nunca os portugueses viram em risco as suas poupanças. Independentemente dos movimentos de criação ou desaparecimento de muitas marcas, a palavra “falência” estava completamente afastada dos balcões dos bancos.

2 – Muitos de nós recordam, ao longo do último meio século, enormes mexidas na banca nacional. Nasceram e desapareceram dezenas de bancos ou marcas bancárias. Por aquisição, por incorporação, por fusão, ou por simples retirada do mercado. Mas nunca os cidadãos sentiram o seu dinheiro em risco. Mesmo nas situações mais problemáticas, no mínimo as carteiras de clientes transitaram sempre para outras instituições.

A credibilidade e confiança na banca nacional era um valor absoluto. Independentemente da dimensão do banco. Fosse grande ou pequena, nenhuma instituição bancária deixava que a desconfiança e a dúvida se instalasse entre os clientes. No mínimo, funcionava uma espécie de “solidariedade” no setor, de molde que quando um banco entrava em dificuldades, podia deixar de ter visibilidade pública, mas ainda assim os clientes não eram afetados, e, quando muito era-lhes proposta a mudança de marca, sem qualquer afetação das contas em vigor.

3 – A partir do final de década passada tudo se alterou. É certo que a mudança de paradigma coincidiu com o início da crise internacional. Mas ninguém pensava que fosse possível uma razia de tal dimensão que atingisse dezenas de milhares de cidadãos, e outras tantas dezenas de milhares de empresas e instituições públicas e privadas. Quatro bancos com expressão pública faliram e desapareceram: BPN, BPP, Banif, e BES. E com eles centenas de milhões de euros foram perdidos. Para além destes, o terramoto chegou a todos os outros, excepto ao Santander Totta.

Todos tiveram de recorrer a gigantescos financiamentos garantidos pelo Estado. E nem o banco público, a poderosa Caixa Geral de Depósitos escapou. O preço desta fatura já ultrapassou os 30 mil milhões de euros. E ninguém sabe até onde ainda pode ir o buraco. No pelourinho dos culpados está, antes de mais, o Banco de Portugal. Mas não só. Vários ministros das finanças, primeiros-ministros e até presidentes devem meter a mão na consciência, porque os portugueses não vão confiar tão cedo…

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