Proposta de cavaco para a crise parece improvável sem eleições

1 – Na sua comunicação ao país, o Presidente da República enalteceu os valores da estabilidade política, recusando-se a avaliar a proposta governativa da coligação PSD/CDS, pondo em relevo os riscos resultantes da interrupção do processo de assistência financeira da troika, e a desconfiança que eleições antecipadas ainda este ano desencadearia nos mercados financeiros. Disse ainda o Chefe do Estado que, se desencadeasse agora um processo eleitoral neste cenário, Portugal teria que ser objeto de um novo resgate, sob pena de colapso financeiro do Estado.
Perante os perigos enunciados, o Presidente lançou o repto aos três partidos do arco da governação, impondo um período de negociações alargadas, com o objetivo de conseguir uma plataforma de entendimento que assegure estabilidade governativa e financeira, pelo menos até ao fim do programa de assistência da troika, com eleições gerais antecipadas para meados do próximo ano. A proposta de Cavaco caiu que nem uma bomba entre os partidos, e no interior do país político. Mas é uma jogada de altíssimo risco, quaisquer que seja a saída que se venha a desenhar.

2 – A comunicação do Chefe do Estado surgiu dez dias após o início formal da crise, ou seja na sequência da demissão de Vítor Gaspar da pasta das finanças, pouco depois reforçada com o pedido de demissão do líder do CDS, Paulo Portas. Independentemente da contabilidade partidária que o processo tem alimentado em acesas discussões públicas, a verdade é que os dois parceiros da maioria acabaram, pouco depois, por levar a Belém uma nova redistribuição do bolo do poder, que não mereceu, contra todas as espectativas, o aval do Presidente da República.
É público e notório que, para as diferentes oposições, sejam de natureza partidária ou sindical, o novo desenho da coligação não assegurava nenhuma esperança aos portugueses, e, bem pelo contrário, surgia como um arranjo oportunista que apenas visava sustentar os dois parceiros no poder. A maioria dos comentadores e analistas políticos nos media não diverge muito nesta leitura catastrofista, procurando, cada um à sua maneira, minar e desacreditar os novos e velhos protagonistas do poder. Estes dois factos conjugados permitem concluir que a nova versão da coligação PSD/CDS não teria, nem terá – se vier a concretizar-se – um único dia de descanso.

3 – Em nome da seriedade inteletual impõe-se colocar algumas questões que nos ajudem no raciocínio analítico: mas, afinal, quem tem razão? Está o Governo agora mais forte do que antes da crise? Tem a coligação condições para prosseguir a legislatura, mesmo que só até ao próximo verão? Este abalo sísmico terá algum efeito nos corredores do poder da União Europeia? É de esperar, com realismo, profundas mudanças quer no estilo quer nos conteúdos da governação? Quem poderá, afinal, ganhar ou perder, realmente, com esta crise? Tem a oposição soluções mais duradouras e credíveis para um novo rumo político?
Não há respostas taxativas e categóricas para nenhuma destas perguntas. Porque estamos perante uma nebulosa demasiado densa para podermos prever, com realismo, o que verdadeiramente pode acontecer. Mas há uma chave mestra para responder a praticamente todas estas questões. A saber: se a União Europeia aceitar rever profundamente os objetivos que nos impôs no âmbito do memorando de entendimento, há condições para aceitar que esta crise foi virtuosa. Caso contrário, ou seja, se os nossos parceiros mantiveram a mesma postura que até agora, então estamos apenas perante um intervalo. Isto é, a crise segue dentro de meses…

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